O lipedema é caracterizado pela deposição desproporcional de gordura em membros, principalmente em mulheres, acompanhada de sintomas como dor, sensação de incha
Bom dia e obrigada pela sua participação. Bom dia, obrigado pelo convite.
Tu falou todos, eu já sou o terceiro. Mas obrigado pelo convite. Vamos falar de um assunto que eu adoro, que é o lipedema.
Sim, nos vídeos ao vivo, a gente tem uma masterclass, tem algumas entrevistas, tem um dos primeiros episódios também. Aqui a gente fez, deu tudo errado, mas no final deu certo. Ainda tava ajustando.
Um tema bastante importante, que costuma ser de maior dúvida das pessoas quando se trata de determinado tema, assunto que a gente traz aqui pro AmatoCast. Então hoje, eu já vou direto.
Então, parece uma pergunta simples, né, mas dá pra complicar bastante ela. Porque as pessoas e a literatura descrevem como a deposição de gordura em membros, então gordura nas pernas, gordura nos braços, de uma forma desproporcional ao tronco.
Olá, meu nome é Letícia Miyamoto e está no
ar mais um AmatoCast pelo canal do Instituto Amato. Agradeço mais uma vez o carinho da
sua audiência e participação aqui conosco
para falar sobre tudo o que envolve qualidade
de vida, inclusive, claro, relacionado à saúde. No último episódio, nós estivemos aqui com o
doutor Marcelo Amato, que é neurocirurgião,
e nós conversamos sobre problemas relacionados
à coluna, doenças relacionadas à coluna. Antes, também nós estivemos aqui
com o doutor Fernando Amato,
que é cirurgião plástico, e falamos sobre os
diferentes tipos de cirurgias mamárias. Hoje,
pela primeira vez, aqui comigo, no
AmatoCast, está o doutor Alexandre Amato,
que é cirurgião vascular, que vai falar
sobre o tratamento clínico do lipedema,
né, doutor? Bom dia e obrigada pela sua
participação. Bom dia, obrigado pelo convite. Eu sou o terceiro irmão aí, né? Tu
falou todos, eu já sou o terceiro. Mas obrigado pelo convite. Vamos falar de
um assunto que eu adoro, que é o lipedema. E vamos lá, tô pronto. Hoje, inclusive,
né, o terceiro irmão que eu falei aqui, todos são bastante parecidos aqui, que eu
achei. Mas não é a primeira vez no AmatoCast,
de forma geral, né, no canal do Instituto Amato. Comigo aqui é a primeira vez, né, doutor? Já
tem outros temas relacionados ao lipedema aqui,
outros episódios? Sim, nos vídeos ao
vivo, a gente tem uma masterclass,
tem algumas entrevistas, tem um
dos primeiros episódios também. Aqui a gente fez, deu tudo errado, mas
no final deu certo. Ainda tava ajustando. Ainda tava ajustando o AmatoCast, mas foi
bem divertido. E tá aí pro pessoal assistir,
sim. Beleza, inclusive a gente vai deixar, então,
o link pra quem quiser conferir, pra
ver tudo sobre o assunto do lipedema. E hoje a gente vai trazer um pouquinho, desde o
início, diagnóstico, sintoma, o que que é de fato,
doutor? A gente sempre começa o nosso episódio com
uma pergunta direta, que vai direto ao assunto, né? Um tema bastante importante, que costuma ser
de maior dúvida das pessoas quando se trata de determinado tema, assunto que a gente traz aqui
pro AmatoCast. Então hoje, eu já vou direto. O que é de fato o lipedema? Então, parece uma pergunta
simples, né, mas dá pra complicar bastante ela. Porque as pessoas e a literatura descrevem
como a deposição de gordura em membros, então gordura nas pernas, gordura nos braços,
de uma forma desproporcional ao tronco. Então, mas não é só essa deposição de gordura,
tem que ter alguns fatores a mais. Então, tem que ter dor, tem que ter sensação de inchaço,
tem que ter uma sensibilidade ao toque,
pode ter um aumento de roxos no local. Então, sabe aquelas pessoas que batem ou nem
bate e começa a formar roxo? Então, tem essa hipersensibilidade no local, mas muitas vezes é
descrito como a desproporção. Então, são pessoas que usam um número na parte de cima do corpo
e outro número na parte de baixo. Isso denota que tem essa diferença da deposição de gordura,
mas não é só isso, aí vem a inflamação junto. E aí a inflama é traz todos esses outros
sintomas associados, como dor, peso,
cansaço e tudo mais. E normalmente é em mulheres,
então é extremamente raro acontecer em homens,
pode acontecer, mas normalmente ocorre
em mulheres. Mas por que eu falei que dá
pra complicar? Porque, na verdade, o lipedema é
uma resposta do seu corpo a alguma outra coisa. Então, é como o corpo da mulher encontrou
uma forma de tentar se defender de uma
agressão. Então, daria pra gente dizer que o lipedema, de fato,
é difícil a gente classificar como uma doença. Entra nessa questão porque está relacionado
a outro tipo de diagnóstico que essa pessoa
pode ter. Necessariamente precisa de um tratamento
quem tem essa questão do lipedema? Essa pergunta é muito legal porque o lipedema foi classificado
como doença, então ele já está no CID, no CID-10,
no CID-11, como doença. E tem vários aspectos
colocar uma situação clínica como doença. A primeira delas é, na hora que você
classifica como doença, maravilha,
a gente vai ter investimento em pesquisa, a
gente vai ter muita gente buscando, estudando
esse assunto. Então, esse é um aspecto bom. Mas
tem um outro lado que se chama fechamento precoce. O que significa isso? Quando o médico vai atrás
de tentar entender o que está acontecendo com o
paciente, se ele chega num diagnóstico, ele já
deu um fechamento precoce, ele não vai buscar
mais alguma coisa. Ou seja, descobrir que tem esse
diagnóstico é isso e ponto final. Esse ponto final
faz o médico parar de buscar outras coisas
que possam estar afligindo essa pessoa. E aí vai ter que ter um tratamento para
aquela doença, que pode ser uma pílula mágica,
uma cirurgia mágica ou qualquer
coisa para resolver aquele problema,
mas ninguém vai atrás da causa. E a causa
que é o mais importante? Porque se eu falei
que o lipedema é uma resposta do corpo a
uma agressão e eu vou tratar o lipedema,
eu estou tratando só a resposta, eu não estou
tratando a agressão. E é muito mais relevante
eu tratar o que está agredindo o corpo
do que a resposta do corpo a esse efeito. Então é uma questão de causa e efeito bem sutil
e que é complicado. Se a gente olhasse o lipedema
como um sintoma e não como uma doença,
não haveria o fechamento precoce. Ou seja,
entendi que a pessoa tem esse sintoma, mas o
que está levando a ter esse sintoma? E aí a
gente continuaria a investigação,
identificaria a causa e trataria. E aí diminuiria, obviamente, não só a doença
originária, como também o sintoma. Muito
importante realmente esse esclarecimento. E em questão de até orientar as pessoas que vieram procurar pelo vídeo sobre esse
assunto a buscar o que está causando. Às vezes a pessoa já teve o diagnóstico confirmado
por algum médico, às vezes está com essa dúvida, a gente vai chegar também nessa questão
de sintomas e tudo mais. Doutor, até um dado que a gente já tinha conversado
antes, que foi levantado pela própria clínica, a Clínica Amato, que cerca de 12,3% das mulheres,
a expectativa é que tenham lipedema em todo
mundo. Essa questão também entra para o Brasil. Cerca de 500 milhões de pessoas no
mundo devem ter essa doença. Por que
agora está sendo mais falado? Porque a gente
percebe, inclusive trouxe dois casos aqui,
dois exemplos, que a ex-paquita Tatiana Maranhão e
a influenciadora Camila Loures falaram sobre essa
questão recentemente. A gente vai chegar também
na questão da Luana Andrade, aquela influenciadora
que infelizmente veio a óbito durante uma
cirurgia, relacionada a esse tipo de assunto. Mas a gente percebe que, por exemplo, há um ano
ninguém falava muito sobre lipedema. Agora, mesmo eu não sendo relacionada diretamente à área da
saúde, eu vejo muita gente falando, influenciador,
clínicas falando muito sobre o lipedema. Por que
esse assunto veio à tona agora, sendo que tanta
pessoas têm, se for considerar o dado mundial? Pois
é. Eu trabalho com isso há mais de uma década. Eu era o cara que passava no congresso e
as pessoas ficavam olhando e falavam assim,
o Amato, aquele que está tratando
obesidade. E não é obesidade,
é uma doença. E as pessoas não entendiam. Isso é um trabalho de formiguinha, tentando
conscientizar todo mundo da existência dessa
condição, dessa situação clínica, não só
médicos, como pacientes também. Realmente,
nesse último ano, o que eu vi foi um boom de gente
se dizendo especialista no assunto e que encontrou
a solução milagrosa. Ou é o chip que resolve, ou
a pílula que resolve, ou a cirurgia que resolve. E assim, por um lado, é bom que tem muita gente
falando, então começa a ter gente interessada, gente séria interessada em pesquisa. Só que,
por outro lado, também tem muita picaretagem por aí. E esse 12,3% é uma das pesquisas
sérias que o nosso instituto publicou. Aliás, é a primeira pesquisa séria sobre
prevalência do lipedema no mundo. Existem várias publicações prévias, mas todas elas
com metodologia não replicável. Ou seja, o trabalho foi publicado, mas não era bem
explicado como que eles chegavam nesse número. Tanto que ia desde 0,3% na população feminina
até 30 e poucos por cento. Então ninguém sabia exatamente quantas pessoas eram atingidas
pelo lipedema. Com o nosso trabalho, não. É uma metodologia super replicável, compreensível,
e a gente chegou no número de 12,3% no Brasil. Isso pode mudar de país para país. O número que
você chegou mundial pode ficar próximo disso, mas quando a gente vai para o mundo mais oriental,
provavelmente a prevalência vai cair bastante. Não chega próximo disso. Então, eu não
sei dizer quanto que seria no mundo, mas no Brasil é isso mesmo. 512%. Exato. A questão é, não tem tudo isso de mulher
desesperada querendo o tratamento para ontem. Então, o que está acontecendo? Por que
esse número é tão alto e não tem tanta gente desesperada? A questão é, o lipedema
pode estar lá dormindo sem causar incômodo. E isso é o mais comum. São pessoas que atingem
um nível de qualidade de vida, de hábito de vida saudável, em que deixa essa doença dormindo
sem trazer sintoma. Então não vai incomodar. Ela começa a incomodar quando
inflama. Então essas, sim, vão estar buscando tratamento. E aí não são 12,3%
da população inflamada, com dor, com peso, não. Longe disso. Mas muitas carregam essa situação
e estão bem, estão ótimas. Fazem uma dieta que elas se deram bem, ou fazem um exercício físico
que ajuda, e atingiram o seu nível de bem-estar. Esse é o objetivo de todo mundo. E aí eu, voltando
ao que você comentou, sobre todo mundo falando, influenciadores e tudo mais, o problema
de dar um nome para isso é que todo mundo, mesmo quem não precisa, começa a entrar
na paranoia de, se eu tenho essa condição,
eu tenho que tirar essa gordura doente de
mim ontem. É o desespero, é a ansiedade. E isso acaba criando uma situação muito
ruim, que é operar gente que está inflamada,
que não está na fase de tratamento, e operar
gente que não precisaria de cirurgia. Era
só ajustar uma dieta, ajustar o exercício
físico, ou alguma outra coisa no hábito de
vida que esteia incomodando, e aí ficaria
bem, sem precisar de um evento agressivo,
como uma cirurgia. Então, tem os
dois lados da moeda, como tudo. É bom as pessoas comentando, aumenta a
conscientização pública, mas, por outro lado, tem muita picaretagem por aí. E eu sigo as mídias
sociais, vejo cada coisa assim de chorar. Doutor,
só para deixar claro também, essa porcentagem
de 12,3% só entre as mulheres brasileiras,
ou envolve toda a população,
incluindo homens? Não, mulheres. Mulheres. E por que isso é mais comum em
mulheres? A gente já citou aqui anteriormente,
um pouquinho no início, que é muito mais comum
em mulheres. Mas por que isso acontece? Porque
tem alguma explicação médica, científica
para isso? Tem explicação médica e tem uma
explicação evolucionista, que eu acho muito
legal, porque faz a gente entender tudo. A explicação médica está correlacionada
com hormônios. Então, é uma doença que
vai aparecer nas grandes mudanças de hormônio na
mulher, nas fases de mudanças hormonais. Então,
na menarca, na primeira menstruação,
numa gestação ou numa menopausa. Quando tem essa grande oscilação, vai acontecer
o aparecimento dos sintomas. Vai não, quer dizer, normalmente aparece nesses momentos. Algumas
mulheres que entram em tratamento de fertilização in vitro ou que usa bastante hormônio, também
tem o gatilho, é o gatilho do início da doença. Então, a gente sabe que a doença está, de certa
forma, relacionada com hormônio. E isso também é uma das razões, fazendo um parênteses aí,
para muito novo especialista aí, dizendo que descobriu a solução. Descobriu a solução,
quer dizer, só bloquear o hormônio e resolveu. Não, não é. Longe disso. Mas, indo
para a parte evolucionista, então, por que acontece na mulher? Veja, o lipedema pode
parecer uma coisa ruim. Mas, para a natureza, a natureza não está querendo fazer uma coisa
ruim ou uma coisa boa para o indivíduo. Para a natureza, interessa uma coisa só. Se
ela consegue procriar, passar para frente o seu gene. Se fosse uma coisa essencialmente
ruim e que impossibilitasse a vida, isso seria gradualmente eliminado do nosso pool genético e
ia diminuir a porcentagem de gente que possui. Então, como que uma porcentagem
tão grande possui? Porque não faz mal a ponto de matar ninguém. As pessoas
continuam engravidando e tendo filho. Agora, qual que era a vantagem disso lá no passado, na
época das cavernas? Quem sobrevivia uma estiagem, um inverno rigoroso, uma falta de comida era
quem conseguia armazenar energia de alguma forma. E como que a gente armazena energia? A gente
armazena energia na forma de gordura. As mulheres que possuem lipedema, elas possuem um
mecanismo de armazenagem de energia muito mais eficiente do que as outras mulheres. A questão
é, hoje em dia, nesse mundo que a gente vive, em que tudo está disponível, o tempo todo, comida
a qualquer momento, fruta a qualquer momento, açúcar a qualquer momento, sal a qualquer momento,
a gente não precisa mais armazenar essa energia. E essas mulheres que tinham uma vantagem
evolutiva enorme lá no passado, porque elas conseguiam passar um inverno inteiro com
quase nada de comida alimentando o filho, elas eram as que sobreviviam e as que conseguiam
passar o gene para frente. Hoje em dia, isso não faz mais tanto sentido. E aí é um
mundo em que a gente está constantemente inflamado e tem a disposição de alimentar
alimentos o tempo todo, e isso perdeu o valor. Então, aquela máquina eficaz de guardar, aquela
bateria de guardar energia, não precisa mais, mas ela está lá funcionando, guardando a
energia e segurando para não liberar essa energia por qualquer razão. Então,
as mulheres com lipedema eram as que sobreviviam e as que viviam mais, as
que tinham várias vantagens. Hoje em dia, elas precisam entender como fazer esse
corpo funcionar no nosso mundo atual. Acho que faz sentido isso que eu estou
falando. Sim, com certeza. Doutor, você inclusive falou sobre essa questão hormonal,
que estaria eu estudando o básico sobre o assunto para o nosso episódio, eu vi que ainda não
tem uma confirmação de fato qual é a causa específica, que fala muito sobre essa questão
hormonal, mas que ainda tem questões hereditárias. Dá para a gente afirmar que, por exemplo,
uma mulher que não tem ninguém na família, nenhum caso de lipedema, ela
pode ter? Mesmo porque já que envolve principalmente a questão hormonal,
poderia estar ligada à questão hereditária, mas está principalmente relacionada a essa
questão do hormônio. Ok, eu posso falar o que eu acho e posso falar o que está na literatura. Na literatura, fala que tem vários aspectos. Então tem a questão genética, mas
pode ter a questão hormonal. Agora, uma doença ou uma situação clínica que tenha
um índice de prevalência tão alto quanto 12,3%,
não tem como ser um gene só que está acometendo. Vamos pegar as grandes doenças e superfrequentes,
diabetes, por exemplo, não é um gene só. Agora, se a gente pega alguma síndrome super rara,
sei lá, pode pegar um Ehlers-Danlos, que não é tão
raro assim, a gente encontra um gene doente. E
aí a prevalência é bem baixa. Por que eu estou
falando isso? Quando tem vários genes acometidos,
uma pessoa pode herdar um gene da família do pai,
o outro gene da família da mãe, e a somatória
desses dois trazer essa situação clínica. Ou pode ser igual àquele desenho animado, o
X-Men. A família não tinha nada, de repente
o primeiro nasce com uma mutação genética
capaz de produzir essa situação. Então,
a minha opinião é sempre vai ter
alguma alteração genética, sempre. Não é isso que está na literatura, porque
a gente não conhece as alterações genéticas ainda para falar quais são as que
estão acometidas ou não. Mas eu acho que com o tempo a gente vai conseguir
demonstrar isso. Entendi, deixar mais claro. Agora, em relação a sintoma, a gente
falou muito sobre estar relacionado a um outro tipo de problema. Como que
as pessoas conseguem identificar? A gente até citou no início essa questão da
desproporcionalidade entre partes do corpo, essa questão até da dor mesmo. Então, quais
os sinais de alerta para essas pessoas e como que funciona o diagnóstico? Porque, é
claro, precisa de uma confirmação médica. Como que isso é feito no consultório? O
diagnóstico, ele é clínico. E essa é uma das razões, respondendo uma das suas
primeiras perguntas, essa é uma das razões para a doença ter ficado esquecida
há tanto tempo. Ela foi descrita em 1940. Caramba, o que aconteceu para todo mundo deixar
isso aí de lado e não voltar a falar nisso até recentemente? Porque o diagnóstico é
clínico. Ah, mas não entendi. Porque você tem que confiar no seu taco, que é na
propedeutica, na conversa e no exame físico. E isso foi se perdendo na medicina. Eu até ouvi um termo bonitinho,
porque eu acabei de escrever e publicar
um livro sobre propedeutica vascular,
que é como examinar um paciente. E aí eu
li um termo que é propedeutica romântica. Eu falei, é um termo bonito isso. O que
seria? É na época em que a gente examinava,
palpava o paciente, acreditava
naquilo que a gente estava vendo
e dava o nosso diagnóstico. Hoje em dia, não. Hoje em dia, as pessoas precisam de um laudo,
de um exame. E tem que estar lá escrito que
o exame de sangue deu lipedema ou que o exame
XYZ deu o lipedema. Se não ninguém acreditava,
como que eu vou acreditar na conversa do médico
ou no tato? Então, resgatar isso não foi fácil. Resgatar a propedeutica romântica para essa
doença. Só que a questão é, a gente pode criar hoje em dia, com a tecnologia que a gente tem,
mecanismos de diagnóstico. Então, aqui mesmo no Instituto, a gente publicou o primeiro critério
de diagnóstico de lipedema pelo ultrassom. Então, aquele exame super comum que o
equipamento tem disponível no Brasil inteiro, a gente criou critérios
diagnósticos do lipedema. Então, qualquer lugar no mundo agora consegue fazer o
diagnóstico usando o ultrassom, usando o critério que aqui o Instituto Amato publicou. Agora,
dá para fazer com outros exames? Também dá. Com a ressonância magnética, com tomografia
computadorizada. Aliás, tem até trabalho do século passado mostrando o diagnóstico de lipedema com
esses exames. A questão é, o assunto se perdia. Alguém falava sobre isso, publicava e o assunto
morria. Aí, alguém fazia isso e alguns anos depois, o assunto morria de novo. O legal é
que agora a gente conseguiu esse momento em que está todo mundo olhando para o assunto
e fala assim, não, vamos para frente aqui. Isso é muito legal. Isso é onde a gente vê
a evolução da medicina. Nos últimos anos, nos últimos 5 anos, foi publicado sobre
lipedema muito mais do que desde 1940. Está muito rápida essa evolução e é
muito legal participar disso. Sim,
está muito em destaque. Foi o que eu falei. De um ano para cá, é absurdo a quantidade. Até
quando você não está procurando sobre o assunto,
esse assunto veio à tona para qualquer tipo de,
até Instagram, se a gente for dizer. Aqueles destaques ali que aparecem. Os veículos começaram a falar muito sobre isso,
os veículos de notícia mesmo. É relacionado
até aos influencers que disseram. Eu acho
que os algoritmos de todas as mídias
sociais têm um pouquinho a ver com isso. Porque veja, se uma pessoa começa a buscar
alguns assuntos, ele começa a entregar esse
assunto para a pessoa. E aí ele começa
a identificar padrões. Então imagina que a pessoa que tem lipedema, ela busca, as
pessoas vão buscar mais ou menos a mesma coisa. Elas estão buscando como ajustar a
calça. São coisas indiretas à doença,
mas que fazem sentido. Está lá
buscando como ajustar a calça,
como comprar uma roupa de tamanho diferente
para cima e para baixo, como desinchar. E aí o algoritmo vem e fala assim, nossa,
essa
pessoa busca esses assuntos aqui. E ela gostou
desse vídeo, deixa eu ver quem mais gosta
desses. E começa a entregar para a pessoa. Eu acho que esses algoritmos, eles
conseguem até fazer o diagnóstico
com essas informações indiretas. Com certeza,
a pessoa começa ali, até o que a gente fala,
capaz o celular já escutar aqui e hoje já começar
a entregar assunto sobre o lipedema. Pois é,
o celular de todo mundo aqui vai
começar a pipocar assunto lipedema. Vai aparecer todo mundo falando sobre o assunto. Essa questão também de, até trazendo um pouquinho para a sua especialidade, que é cirurgia vascular. Esse tratamento até clínico, por que acontece pelo cirurgião vascular e por que tem um outro tipo de especialidade também que é apta para fazer um tratamento específico do lipedema? Eu acredito que essa é uma das grandes razões para o lipedema ter ficado escondido. Eu vou falar uma frase, eu vou explicar ela. O lipedema é uma doença metabólico imunológica com sintoma vascular e que está sendo tratado pelo cirurgião plástico. Não tem como dar certo isso de jeito nenhum. Eu sou cirurgião vascular, o que aconteceu? Lá atrás, 10 anos atrás, eu falei, não, então calma aí, deixa eu entender a parte endocrinológica hormonal, deixa eu entender essa parte imunológica, para ampliar, porque o paciente chegava para mim, a dor na perna, o peso na perna, o roxo na perna, o inchaço na perna, tudo isso são sintomas vasculares. Os pacientes estavam no meu consultório, não estavam indo para o
imunologista ou para o endocrinologista para resolver a perna. Só que agora, o cirurgião
plástico acha que tirar a gordura resolve. Só que não é, porque... E aí eu fui atrás disso,
porque também em algum momento eu achei, não, calma aí, se eu estou vendo todo o lado clínico,
eu tenho que ver o lado cirúrgico também, deixa eu entender todas as ferramentas. Fui para a Alemanha, fui aprender a operar
lipedema lá na fonte, com o cara que publicou o
primeiro trabalho sobre isso. Falei, tudo bem,
eu trouxe para o Brasil a cirurgia, fizemos
as primeiras cirurgias de lipedema no Brasil. Só que todo mundo esquece que o primeiro cara
no mundo que operou lipedema foi um brasileiro,
Ivo Pitangui. Ele já fazia isso lá
atrás. Mas o que acontecia? Se o
primeiro cirurgião plástico no mundo
que operou lipedema era um brasileiro,
por que os plásticos ficaram muito
tempo sem mexer nessa área? Porque o pós-operatório é horrível, porque não dá
certo, as pacientes reclamam muito depois. Na verdade, eles estavam operando lipedema
inflamado, e aí vai ter um pós-operatório horrível. Só que aí com a tecnologia
atual, com os equipamentos atuais, consegue-se contornar isso. Mas você não está
resolvendo a causa que é aquilo lá que eu falei,
que é o hormonal imunológico, que é muito mais
importante do que retirar essa camada de proteção. Essa gordura em membros, ela diminui o risco
cardiovascular. Diferente da gordura visceral,
que aumenta o risco cardiovascular, essa
gordura é uma camada de proteção. Então,
o que vai acontecer com essas mulheres
que estão tirando à torta e direito essa
gordura do ponto de vista imunológico,
endocrinológico, hormonal? Ninguém sabe. Ninguém sabe, porque está todo mundo tirando
a gordura e vendo como objetivo final de tirar
a gordura se ficou bonito ou não. Só que isso
vai ter um impacto gigantesco na parte clínica e metabólica delas. Sabe quantas cirurgias de
lipedema, não estou falando quantas foram feitas,
estou falando quantas foram publicadas
em pesquisa científica? Menos de 400. E estão colocando como um tratamento padrão
ouro do lipedema. Só que essas 400 cirurgias
publicadas, elas não foram devidamente estudadas. Alguns aspectos foram vistos e nada mais. A grande maioria desses casos foi um questionário
pós-cirurgia que perguntou para o paciente,
você gostou da cirurgia? Sim ou não? Mas
ninguém está perguntando se começou a ter,
se começou a aumentar a gordura visceral depois
da cirurgia. Ninguém está perguntando se começou
a ter enxaqueca depois da cirurgia. Ninguém
perguntando se teve fibrose depois da cirurgia. Ninguém perguntando como que ficou o sistema
imunológico ou essa alteração hormonal ou o perfil
lipídico dessas mulheres depois. Por que eu estou
falando de perfil lipídico? Porque um paciente com lipedema tem um perfil lipídico excelente. São aquelas mulheres que vão no médico e pedem um monte de exame e o médico fala,
nossa, estou com inveja dos seus exames. São todos bons. Aí ela fica com aquela imagem,
entre aspas, da gordinha saudável. Meus exames estão sempre muito bons. Então, se está tudo muito bom, para
que eu vou fazer exercício? Para que eu vou comer bem? Está tudo
muito bem? Só que, na verdade,
o que está deixando aquele perfil muito bom no
laboratorial é a presença do lipedema. E aí,
o que acontece se eu tirar essa gordura
toda? O quanto vai piorar esse perfil
clínico dela? Ninguém está olhando para isso. Não tem nenhum trabalho publicado sobre isso. E está cheio de gente aí. Eu acho engraçado,
tem gente que fala, eu operei duas mil pessoas,
três mil pessoas, quatro mil pessoas
de lipedema. Cada hora fala um número. Então, publica. Tem só quatrocentos na literatura
mundial publicado? Vamos ver isso feito de forma séria, científica? Se não, é racismo. E essa questão, então, até o tratamento clínico mesmo, quando não há necessidade de cirurgia, quando não é recomendada a cirurgia, ainda assim, o cirurgião vascular é a pessoa mais indicada para isso, para deixar bem claro por onde a pessoa pode ir caso tenha suspeita. Ela vai entrar na porta do cirurgião vascular. Porque o sintoma é vascular. Só que tem muito vascular que não está nem aí para isso. Eu entendo isso. O meu trabalho de formiguinha aqui é conscientizar não só a população, como também os cirurgiões vasculares. Então, tem gente que acha legal que eu trouxe isso, essa conscientização para especialidade, mas tem muita gente que não odeia isso. Caramba, vou ter que estudar um assunto a mais? É isso que eu ouço nos congressos. Pô, Amato, você está trazendo um negócio aí que não é minha área, eu não quero fazer isso. Tudo bem. O que eu tenho falado é o seguinte. Não
há vergonha nenhuma para o médico em não querer ou não saber tratar o lipedema. Não tem. Mas diagnosticar tem que saber. Porque se
diagnosticou, aí encaminha para quem sabe, para quem faz direito e quem realmente está olhando o
paciente e não está olhando o cifrãozinho lá da
cirurgia de tirar a gordura. Se você... Agora,
a vergonha está em não fazer o diagnóstico. Hoje em dia, com toda essa conscientização,
com todo mundo sabendo, os pacientes já estão
entrando no consultório do cirurgião vascular
falando eu tenho lipedema. Sim ou não? Era só que a confirmação. E está tudo bem. E se falar não sei, é muito mais honesto do
que falar não e fingir que não existe isso,
que é o que está acontecendo. Então, quem que
é o melhor médico para essas pessoas buscarem? É o médico que se importa com o paciente. É o
médico que se importa em estudar o problema. Não são casos fáceis. A maior parte
das vezes são casos complicados. São pessoas que passaram em vários
médicos buscando coisas diferentes. Como eu disse, existem várias causas
inflamatórias. Então, normalmente ela não foi em um médico só no cirurgião vascular. Não, ela
está lá buscando o seu problema com a osteoporose,
também está cuidando de uma enxaqueca,
está cuidando de um problema intestinal. São várias coisas associadas. Só que ninguém
está fazendo toda a conexão e vendo que o
problema é único e está lá. E o lipedema é
um reflexo disso e não a causa principal. Então, quem que é o melhor médico? É aquele
que se preocupa com você. É difícil. A outra
coisa que eu falo é, se o médico não sabe sobre
o assunto, não é para você ficar com raiva dele. Se for um médico que tem o interesse em estudar,
ele vale muito mais do que um que acha que
sabe. Então, tem muita gente disposta a estudar,
a ir atrás de ajudar o paciente, mesmo não
sabendo. E esse cara ou essa mulher, tanto faz. Se ela tiver um interesse genuíno e for estudar,
ela vai te acompanhar. Então, é muito legal o paciente estimular isso no médico, de uma forma
positiva, levando a informação, vendo se o médico se interessa, do que de uma forma negativa,
apontando o dedo, falando, ele não sabe, ele é ruim. Ele não foi ensinado na faculdade, é um
assunto que não era comentado, não é culpa dele. Algo que ainda está se tornando em
evidência. Exato. Está ficando em evidência. Doutor, agora, quando há esse diagnóstico, é
importante a gente dizer também que o lipedema costuma ficar concentrado nas pernas e nas coxas,
que é o que mais a gente vê. Mas há níveis desse lipedema, o que significa esses níveis? E pode
começar, por exemplo, mais na parte inferior e ir subindo, ou é algo que desce? Qual é a melhor
forma da gente explicar, da forma mais didática possível, essa questão dos estágios do lipedema? Eu acho que a coisa mais importante que eu tenho que falar aqui, para todo mundo, sobre os estágios
é, muito embora existam os 4 estágios da doença, 1, 2, 3, 4, e o 4 é o pior de todos, onde tem
associado o linfedema secundário ao lipedema,
é o lipolinfedema, e apesar de ser evolutivo,
ou seja, quem está no estágio 4 passou pelo 1,
2 e 3, isso não significa, e isso eu tenho
que reforçar, não significa que quem está
no estágio 1 vai progredir. Porque o que está
acontecendo hoje em dia, as pessoas começam a
pesquisar sobre o lipedema, e aí vem que tem
esses 4 estágios, e aí lembram de uma tia,
alguém da família que está no estágio avançado,
fala, eu não posso ficar assim, e aí entra em uma
situação de pânico e desespero, de eu preciso
arrancar isso fora de mim, essa gordura doente. Então, se eu tenho que arrancar, a única solução
é a cirurgia. E aí, estão operando gente que não
precisa, e tem muito cirurgião plástico usando
isso como argumento. Não, vamos operar cedo porque assim você não fica no estágio 4. Mas o estágio 4 é raríssimo, não é o frequente. O estágio 4 é aquela pessoa que passou a vida inteira inflamada, só piorando, e não tratou a parte clínica, e aí chegou no estágio 4. Como eu disse, 12,3% da população tem e não está reclamando, porque elas estão lá no estágio inicial, estágio 1, às vezes pré-1, pré-clínico, e a doença está lá dormindo, e vai ficar assim a vida toda. Precisa arrancar cirurgicamente a gordura dessa mulher? Não precisa. Aliás, é a gordura que dá o corpo de violão, é a gordura que dá a definição da mulher. No Brasil, isso é visto como bonito. O que não pode é doer, o que não pode é trazer sintoma, diminuir qualidade de vida. Agora, ter essa distribuição de gordura de uma forma saudável é até desejável. Então, essa questão dos estágios é perigosa. Eu acho que esse é o ponto principal. É completamente irrelevante
saber em que estágio você está, 1, 2, 3, porque se a gente trata,
a gente consegue regredir. E essa é outra coisa que estão usando
de forma errada. Ah, está só subindo, não vai diminuir. Diminui! Se fizer
o tratamento correto, sim, diminui. A questão é... E aí entra também nesse problema
de estar todo mundo falando sobre lipedema, e todo mundo se diz especialista. Então, ah, eu fui no especialista, tentei o tratamento e não melhorei. Não,
você foi em alguém que se diz especialista, tentou um tratamento que não
é o correto, não melhorou. Então, é o tratamento do lipedema que não deu
certo, ou a pessoa que não sabia te dizer o tratamento, te colocar no tratamento correto,
e aí você não melhorou. Então, muita gente está desistindo. Ah, pra mim não dá certo o tratamento
clínico, mas na verdade está fazendo tudo errado. Tem gente... Nossa, eu vejo diariamente uma
loucura postada no Instagram de tratamento de lipedema. Diariamente tem alguma
solução milagrosa. O protocolo XYZ. Tá cheio de gente... Agora a moda é colocar
nome de protocolo. Eu tenho o meu protocolo XYZ aqui pra tratamento do lipedema. Gente, entra no Google Scholar. Scholar.google.com. Que aí você vai ver trabalho
científico. Escreva o nome desse protocolo e veja se a pessoa é séria, se publicou alguma
coisa, se realmente isso existe. A outra coisa. Gestrinona pro tratamento de lipedema. As
pessoas vivem me mandando mensagem. Ah,
pode? Faz sentido? Eu posso responder aqui. Mas tenta colocar gestrinona
lipedema no Google Scholar. Vai ver que não tem nada. Ninguém
publicou, ninguém estudou isso. Então é achismo de alguém. E tá
cheio de achismo. Esse é o problema. Aquela curva de Dunning-Kruger. No início a
pessoa lê um, dois, três artigos, fala, nossa,
entendi tudo da doença. Aí começa a tomar porrada
e vê que não dá certo aquilo que estava fazendo. Aí cai o nível de confiança. E aí vai percebendo
aos poucos que isso é muito mais complicado do que realmente aparenta. Acho que o mais importante
sobre essa questão dos níveis é deixar bem claro,
então, que não há a confirmação de que a
pessoa que é diagnosticada no estágio 1,
que ela vai ter de fato, que vai
chegar ao estágio 4, por exemplo. Exato. E também que há a possibilidade de uma
pessoa que está no estágio 4 ter uma regressão,
digamos assim, do diagnóstico. Especificamente,
o estágio 4 é o mais complicado de todos. Porque aí já tem dano físico no sistema linfático. Então esse, com o tratamento clínico conservador,
ainda consegue melhorar muito sintomaticamente,
mas a gente não consegue regredir o dano no
linfático. No estágio 1, 2 e 3, que não tem dano
no linfático, é muito mais fácil o tratamento. Mas como eu disse, o estágio 4 é
raro. Sim. Ainda assim, no estágio 4,
a possibilidade pode ser um tratamento
clínico ou necessariamente cirúrgico. Dá para melhorar bastante. Olha que interessante, né? Aqueles 400 e poucos tratamentos publicados
cirúrgicos de lipedema mostram que os melhores resultados estão nos estágios iniciais, não nos
estágios finais da doença. Então, teoricamente,
você teria que operar as pacientes
mais cedo para ter um resultado melhor. Só que exatamente essas pacientes no estágio
mais precoce são as que melhoram mais com
o tratamento conservador. Quanto mais
tempo você deixa a doença progredindo,
ela vai inflamando mais, vai causando
mais fibrose, mais dano naquele tecido,
é mais difícil a gente regredir. Mas
a gente consegue, e consegue bastante. E não necessariamente o estágio 4 vai estar mais
visível que aquela pessoa tem o lipedema. Ou
pode ser que visivelmente ela não aparenta, mas a
questão inflamatória está pior e chegou ao estágio
4. Não sei se ficou clara a minha pergunta, mas
a questão é visível. Você diz o tamanho? Isso. A questão é visível se a pessoa está... Normalmente é visível. Normalmente é visível. O estágio 4 é aquele que eu faço
diagnóstico a um quarteirão de distância. Esse realmente é fácil fazer
o diagnóstico. O difícil é o estágio inicial. O estágio pré-clínico, o
estágio 1. Esse é onde tem muita dúvida. E onde entram essas influenciadoras, a Luana, né? Que se tinha, provavelmente tinha
um estágio muito inicial, muito precoce, onde... O que eu vi falando depois... Ah, porque
não foi uma cirurgia estética. Era necessário fazer a cirurgia. Necessário? Não! Pode ter
sido falado isso, mas não era necessário. Se ela estava no estágio inicial, longe de ser
necessário, tem muito tratamento conservador,
clínico, e que funciona e que melhora para ser
feito antes de decidir por uma cirurgia. Então,
eu acredito, né? Você não perguntou,
mas eu estou falando. Eu acredito
que ela entrou naquela situação da
ansiedade, da urgência psicológica. Eu preciso arrancar essa gordura de mim. Ela devia
estar sentindo dor, devia estar sentindo incômodo, e se não deram uma alternativa, ou se deram uma
alternativa que não funciona, ela se vê sem opção e acaba decidindo pela cirurgia. Eu acho que
foi uma decisão, assim, precipitada, no mínimo. É, já era o próximo assunto, inclusive, que
eu ia entrar. Que bom que você já citou, porque relembrando para quem não acompanhou, a
gente chegou a falar sobre o caso da Luana Andrade em um episódio sobre desmorfia corporal, doutor,
que a gente falou até com um psiquiatra que esteve aqui, com o doutor Luiz Henrique Dickmann,
se eu acertei o nome, sobre essa questão de quando a pessoa enxerga uma questão no corpo,
fica com aquilo fixa como se fosse um problema que precisa ser resolvido de forma urgente
e não consegue viver em paz tranquilamente, enquanto não resolve o que na cabeça da pessoa é
considerado um problema. Bom, enfim, retomando, a Luana Andrade era uma influenciadora de 29 anos, dançarina do SBT, do programa Domingo Legal. Dizem depois, doutor, que ela foi diagnosticada com lipedema, familiares, parentes confirmaram esse possível diagnóstico, não é algo que a mídia falou sem ter a confirmação, e ela, infelizmente, na cirurgia teve uma complicação e veio a óbito. Então, doutor, agora sobre essa questão da Luana, inclusive a gente já tinha comentado antes que foi uma pessoa que tentou marcar uma consulta aqui com você, acabou não conseguindo e buscou uma outra forma. Uma outra opinião. Isso. Por que que no caso dela, não sei se você pode falar exatamente, porque não tinha ali a ficha da paciente para explicar exatamente o que aconteceu, mas para tranquilizar as pessoas, para quem é recomendada a cirurgia, por que que nesse caso ela veio a óbito? O que que pode acontecer numa cirurgia de complicação nesse caso? Então, vamos lá. Tem coisa que eu consigo
falar e tem coisa que eu não consigo. Simplesmente porque eu não
tenho informação. Então, ela tentou marcar comigo e ela não
aguentou esperar a lista de espera
e aí ela foi atrás de outra pessoa para resolver
o problema. Eu fico muito triste porque,
pelo que eu vi, mesmo se ela tivesse o lipedema,
eu nunca teria indicado a cirurgia de cara. Era um caso fácil de tratar sem cirurgia. Então, isso me deixa muito chateado. Agora,
eu sei, porque eu ouvi falar, não vi laudo de
atestar de óbito, nada que foi uma embolia. Risco cirúrgico. Embolia. Embolia
pode ser por causa de uma trombose,
pode ser por causa de uma embolia gordurosa. Ambas são graves e podem acontecer nas cirurgias. Especificamente numa cirurgia plástica,
aliás, serve pra todas, né? Quanto mais
cirurgias você vai agregando no pacote,
mais aumenta o risco. Então,
é aquela história do já que. Já que eu vou deitar na mesa cirúrgica,
vamos fazer isso também, isso também. Aumentou o tempo cirúrgico, aumentou o risco de trombose e embolia. Isso pode acontecer, que normalmente acontece com cirurgia plástica. Ninguém vai fazer uma cirurgia no cérebro e pede pra fazer uma estética junto. A ordem de prioridade. E é outra questão do lipedema. Ela fica naquele limbo do estético-doença, estético-doença. Já que eu tô fazendo uma cirurgia que é uma doença, mas tem um aspecto estético também, deixa eu fazer uma outra estética. E aí vai juntando, aumenta risco. Agora, os riscos de hematoma, seroma, infecção, trombose, embolia, tudo isso existe e é comum. O risco maior que eu vejo também é de não atingir o que a pessoa deseja. Aquela pessoa que vive no mundo da lua, quer uma coisa e não percebe que a cirurgia não é capaz de entregar aquilo. E não vai entregar e depois vão colocar a culpa porque você não fez isso no pós-operatório ou porque você não fez a sua parte. Sim, só que
a cirurgia, o certo é você estar em sincronia, você entender exatamente o que ela
consegue te entregar antes de você deitar numa mesa cirúrgica. E isso se atinge com
um pouquinho de tempo e entendimento da doença. Agora, como envolve dinheiro, é
só tropeçar na frente de alguns consultórios que a sua cirurgia já
está marcada. Isso é um problema, porque aí tem a dismorfia corporal. As pessoas
se veem de uma forma e querem mudar essa forma e todo mundo à sua volta não enxerga
dessa mesma forma, só que ela quer fazer. E aí tem o direito individual de cada um, todo mundo quer fazer o que quiser com
o próprio corpo, é direito seu. Sim, só que dá um tempo para você digerir isso e
fazer com uma conscientização maior. Quem tem lipedema nasceu com essa genética, então está
carregando esse problema há anos, décadas. Por que agora você quer resolver ontem o
problema? Não dá para esperar um pouquinho, entender melhor o que está acontecendo e fazer
com calma? Muitas delas não. Por quê? Porque estão em um altíssimo nível de inflamação. E essa inflamação tem uma mudança psíquica, tem uma mudança mental, deixa a pessoa mais ansiosa, deixa a pessoa mais precipitada, ela começa a tomar decisão sem pensar direito, porque está lá com aquela inflamação ardendo. Então a gente tem que tratar isso, tratar a mente para deixar a pessoa calma e para tomar uma decisão consciente depois. E voltando, como envolve dinheiro, tem muita gente que não está nem um pouquinho preocupada com isso. Tem gente que está incentivando essa loucura, essa ansiedade, essa precipitação, criando medo. Tem gente que fala que lipedema é um tumor. O que está por trás dessa palavra tumor? Tumor eu tenho que extirpar do meu corpo? Tumor eu tenho que arrancar fora? Isso é um problema gravíssimo. Só denominar com esse nome já carrega um peso gigantesco. Isso para mim deveria ser um crime, mas não é. Não é porque é uma doença que está sendo ainda estudada, ainda entendida. E tem muita gente achando que a cirurgia é o padrão ouro de tratamento considerado no mundo inteiro como a melhor coisa, sendo que só tem 400 casos publicados na literatura. Longe disso, longe disso. Agora eu acredito também que, até avisar a nossa equipe aqui que a luz parece que teve um problema, mas ele já ficou impactada também com a informação. Doutor, agora já encaminhando, já me sinalizaram aqui que o nosso tempo está chegando ao fim. Agora encaminhando para a questão de tratamento. É bom deixar claro que lipedema então não tem cura, não seria certo usar essa palavra. E ainda assim, de todas as formas, a questão inicial para esses pacientes que são diagnosticados seria a forma clínica. Como que funciona esse tratamento? Realmente há sempre a recomendação de começar por esse lado clínico até chegar a uma possível realização de uma cirurgia. E o que envolve esse tratamento clínico? Quais
são as formas de cuidado com essa pessoa? Então vamos lá. Voltando até... É legal você
falar, não tem cura, né? Então, para ter cura, a gente tem que considerar que é uma doença. Eu entendo, a OMS classificou como uma doença, então teoricamente teria a cura, a
gente vai em busca da cura do lipedema. Mas se a gente olha como um sintoma, é
aquele negócio do fechamento precoce que eu falei. É uma doença, então eu quero a
cura para essa doença. Mas e se ela for um sintoma e aí eu tenho que buscar as outras
doenças que estão causando isso e aí sim curar essas outras doenças? E aí eu melhoro o lipedema. Tem muitas doenças que têm cura e que são a razão
para estar trazendo o sintoma do lipedema. Então, eu conseguiria resumir o tratamento de
uma forma bem simples, que é descobrir o que te inflama e resolver isso. Agora, a
questão é, tem muita coisa que pode estar inflamando, desde situações ambientais,
situações pessoais, vícios pessoais. Cigarro é uma coisa que inflama demais. Alimentação errada, ausência de exercício físico, exercício físico errado. Tem várias coisas não médicas que inflamam. E muitas vezes é isso o problema. E se a gente tira um bem frequente, não é para todo mundo, mas para algumas, por exemplo, o glúten. A gente publicou aqui o primeiro trabalho no mundo sobre o glúten, HLA, e o lipedema foi publicado pelo Instituto Amato. E a gente mostrou que tem uma porcentagem dessas mulheres onde o glúten é absurdamente inflamatório. E se a gente tira isso, há uma melhora significativa. Eu já peguei paciente aqui que está fazendo tratamento num grupo aí que se diz especialista em lipedema, em que tirou o glúten da alimentação, mas deu o suplemento de trigo. Ou seja, não quero que a paciente melhore, porque aí vai para a cirurgia de qualquer jeito. Entende como o negócio é complicado? E todo mundo tem a tendência a supervalorizar a própria especialidade. Então,
se eu sou cirurgião vascular, eu vou hipervalorizar a parte vascular da
doença lipedema ou da situação lipedema. Se eu sou cirurgião plástico, eu vou
hipervalorizar a lipoaspiração como solução para o problema. Se eu sou nutricionista,
eu vou hipervalorizar a alimentação. A alimentação é extremamente importante, não estou falando
isso, só que não é o que resolve para todo mundo. Então, a integração de todas essas especialidades
e profissões é fundamental com o ego mais baixo. E lidar com o ego é muito complicado, porque
quando você está lidando com o ego alto, nariz empinado, eu tenho a resposta para
tudo. Eu lembro que eu fui no Congresso Mundial de Lipedema, que eles dividiram para
um módulo, e tinha o módulo da nutrição. Aí terminou o módulo da nutrição, eu saí, e aí
eu encontrei o grupo de cirurgiões plásticos, tudo conversando. Aí eu falei, mas vocês
não assistiram o módulo de nutrição? Ah, isso aí não interessa, a cirurgia que
resolve. Ou seja, eles não estavam lá para ver o que já tem dieta trazendo
40% de melhora clínica no paciente. E não querem saber, porque se eles descobrirem
essa informação, eles vão falar, opa,
minha cirurgia não é tão importante assim. E
não é! Mas só que eles não querem saber disso,
porque se eles souberem disso, vai
diminuir, então entra num ciclo
muito feio. E é muito difícil a gente
diminuir esse conflito de interesses. Eu não sei como, é a minha luta atual, é isso. Eu tive a humildade de ir para a nutrição estudar
essa parte nutricional, eu tive a humildade de
ir estudar a parte hormonal, porque eu estava
vendo que a parte vascular não era tudo. Aí eu
tive a humildade de ir ver a parte imunológica,
aí eu tive a humildade de ir aprender a parte
plástica para juntar tudo e falar, caramba,
todo mundo tem a sua parcela de verdade,
só que todo mundo está achando que a sua
parcela de verdade é 100% da verdade e não
estão enxergando o problema por completo. Eu não tenho a resposta para a solução desse
problema, eu só vejo claramente isso acontecendo,
eu vejo que eu consigo ajudar uma pessoa por vez
aqui no consultório, aquela que tem a paciência
de esperar um pouquinho a minha lista de espera,
eu consigo ajudar. Eu fico muito triste quando
eu vejo a história igual a da Luana, que não
conseguiu esperar. Eu fico muito triste quando
as pacientes tentam resolver de alguma outra
forma e chegam aqui e já tudo... Elas não voltam
para falar que não deu certo para o outro, eu
começo a pegar as complicações de todo mundo. É triste, mas eu tento fazer esse trabalho de
aparecer aqui no podcast, no canal do YouTube, no
Instagram, sempre alertando todas dessa situação,
escrevo os livros tentando alertar sobre... Ah,
é importante a gente mostrar, pode mostrar. Então, tem o meu livro da dieta, Dieta Cetogênica, essa é uma das estratégias que funciona no
Lipedema, que no Congresso do Alemão Mundial, chegaram a 35% de melhora de sintomas com a
dieta cetogênica, mas não é para todo mundo, tem a dieta anti-inflamatória, que também tem
uma melhora similar, mas também não funciona
para todo mundo, um grupo vai funcionar, por
isso que eu tenho os dois. Isso já responde
também a questão de como funciona o tratamento
clínico, que foi a última pergunta agora. Exato, não tem a dieta para o Lipedema, é
a dieta que funciona para esse paciente. A sua recomendação vai de pessoa para
pessoa. Exato, o exercício físico também. Eu vejo muita gente fazendo exercício
físico extenuante e não percebendo que
é o próprio exercício físico
que está inflamando. É triste,
né? As pessoas estão lá todo dia fazendo, vê
a amiga do lado definindo, morrendo de inveja,
e não consegue definir. E, na verdade,
é o Lipedema, que ela está exagerando. Nesses casos, é só diminuir a intensidade, pode
ter uma resposta muito melhor. Sem fórmula mágica, né? Sem fórmula mágica. Tem que
olhar de pessoa para pessoa. Exato. Isso dá trabalho. Isso não é uma coisa fácil, isso não é uma coisa que a gente consegue
resolver com uma consulta de 10, 15 minutos. A gente precisa entender o contexto
onde o paciente vive para conseguir ajudar. Isso demanda tempo, dedicação,
e esse entender para entregar o melhor para aquele paciente. A customização,
a integração de todas as informações. Hoje em dia, as pessoas falam bastante
medicina integrativa. Tem os dois lados, né? É muito bonito a medicina integrativa, que é
o fato de juntar tudo para tentar entregar para o paciente. Só que o nome integrativo também
está sendo associado a muita picaretagem. O conceito é legal, mas está sendo usado de
forma errônea. Com certeza. Perfeito, doutor. Muito obrigada e muito esclarecedor. É uma direção para as pessoas que buscaram esse tema aqui no nosso
podcast, ou pelo próprio sintoma, ou que conhece alguém que comentou sobre isso, ou
até que queira entender mais sobre esse assunto, já que é algo que tem recebido destaque, que
foi o que a gente disse. Doutor Alexandre Amato, cirurgião vascular, queria agradecer
mais uma vez pela sua presença. E foi um papo muito esclarecedor. Tem outros episódios aqui, a gente já vai deixar aqui também, com a sua
participação relacionada a esse tema. E a gente conta com a sua participação
mais uma vez, hein? Nas próximas. Com certeza. Muito obrigado pelo
convite. Adoro falar sobre o lipedema. Espero ter elucidado as dúvidas e ajudado
as nossas espectadoras. Com certeza. Muito obrigada pela sua participação e
carinho aqui conosco no AmatoCast. Lembro também que, se ficou alguma dúvida
relacionada a esse tema, ou queira que a gente traga de novo o doutor Alexandre para falar
sobre qualquer outro tema relacionado à cirurgia vascular, comenta aqui também qualquer dúvida,
que a gente já vai reunindo tudo e já monta o nosso próximo episódio. Também, se ficou alguma
dúvida relacionada aos temas anteriores que nós trouxemos aqui, pode comentar, que a gente
está sempre de olho e vai esclarecendo para vocês. Obrigada pela participação econto também
com a sua presença no nosso próximo episódio. Até logo!
Este conteúdo é informativo. Para diagnóstico e tratamento, consulte um médico especialista.