O episódio aborda o transtorno dismórfico corporal, um transtorno psiquiátrico caracterizado por uma preocupação excessiva e angustiante com um ou mais defeitos
Então, o que eu acho importante, eu acho que ninguém conhece uma paciente em uma consulta. Então, tem muitos médicos que vêm o paciente, já indicam a cirurgia e não vê mais o paciente. Então, eu acho que o paciente tem que vir mais vezes, até mesmo para você entender o ambiente familiar.
Então, é assim que eu vejo a abordagem de um paciente que eu não vou fazer o diagnóstico de transtorno de esmorfo corporal, eu encaminho para um profissional que faça isso e que faça o acompanhamento. Mas, quando eu tenho dúvida, eu tenho que abordar e tenho que investir nessa abordagem para encaminhar para o profissional correto.
A gente vai falar de traumas na infância, então não é só o abuso sexual que todo mundo pensa, é abuso psicológico, abuso psicológico, físico, negligência, abandono, depois traumas na vida futura, depois estresse crônico, genética, frustração, a gente olha pai, mãe, irmãos, avós, mudanças hormonais, alterações inflamatórias, então, às vezes, tem doenças inflamatórias que causam sintomas psiquiátricos, e num pós-operatório, você vai ter citocina inflamatória, você vai ter liberação, você tem um procedimento.
A pessoa está doente, ela não consegue deixar de sentir aquilo porque alguém de fora falou, pare de sentir. Então, é o cuidado, é o momento que vai ser feito. E você conversando, fazendo isso em equipe, fica muito mais fácil.
Que dá uma interaçãozinha de aumentar a dose de alguma outra farmácia. O anestesista vai lá, usa outro e tudo bem, não tem aquilo que essa pessoa não pode fazer por causa do tratamento psiquiátrico. É muito mais pelo pós-operatório da dor, como ela vai lidar com a ansiedade, como é que ela vai lidar com a falta de mobilidade por um tempo, às vezes a pessoa está tão viciada naquele negócio da academia e ela vai ter que dar uma pausa temporária, então assim, o colega vai preparar muito bem, às vezes ele não consegue fazer tudo isso num dia só, numa consulta só e aí é o que o Fernando falou, se você alinha a expectativa do que o paciente espera e do que o Fernando vai proporcionar de maneira realista, no pós-operatório imediato, daqui a um mês e daqui a seis meses, a pessoa não vai ter uma frustração, porque ele não prometeu algo que ele não vai poder entregar.
Olá, meu nome é Letícia Miyamoto e está no ar mais um Amatocast pelo canal do Instituto Amato. Agradeço mais uma vez o carinho da sua audiência e participação aqui conosco para falar sobre tudo o que envolve qualidade de vida. No último episódio, nós estávamos com a doutora Lorena Mato, que falou aí sobre tratamentos para obesidade.
Também um pouco antes, nós estivemos com o doutor Fernando Amato, que falou sobre novas tecnologias em cirurgias plásticas. Hoje, ele volta aqui conosco no Amatocast. Mais uma vez, obrigado pela sua participação, doutor.
Muito obrigado pelo convite, pela programação, pela participação aqui do nosso podcast. Aliás, hoje a gente tem um convidado especial, que é um colega meu de faculdade, que é o doutor Luiz Henrique Dikma, psiquiatra. E a gente vai abordar um tema bem interessante, que é o desmorfismo corporal.
Seja bem-vindo, doutor Luiz. Muito obrigado, Fernando, Letícia. Recebo com um grande carinho, uma honra estar aqui com vocês.
Vai ser um prazer a gente falar sobre esse tema tão árduo, que aí une várias especialidades, cirurgia, psiquiatria, endócrino, muitas vezes, psicologia, nutrição, ou seja, tem várias áreas envolvidas no mesmo tema. Então, tenho certeza que vai ser um papo enriquecedor. Com certeza.
Obrigada pela sua participação e bem-vindo aqui ao Amatocast. Bom, já vou começar com um caso que repercutiu muito essa semana. Acho que não tem como a gente falar sobre essa questão de desmorfismo corporal.
A gente também já vai definir, de fato, o que é isso. Sem citar o caso que repercutiu no país, até mundialmente, nessa última semana, que foi o caso da Luana Andrade, a influenciadora e também bailarina de palco do Domingo Legal, do SBT, 29 anos, que morreu por conta de uma cirurgia que foi uma lipoaspiração nos joelhos e nas coxas, pelo que foi definido ali, a princípio, pela equipe médica. Alguns amigos também disseram que ela tinha um quadro que o doutor Fernando vai poder explicar de lipedema, mas a gente não vai entrar muito nessa questão hoje.
Bom, a gente não pode deixar de citar, como eu falei, e não explicar como que uma pessoa pode ser diagnosticada com essa questão do desmorfismo corporal. Até que ponto é uma coisa saudável da pessoa procurar algum procedimento estético e até que ponto isso vira, de fato, uma doença. Então, queria começar com isso, doutor.
Muito bom. Letícia e você que está aí me ouvindo, a gente tem que ter um cuidado especial, porque, assim, a linha da psiquiatria, do que é transtorno, do que é normal, é uma linha muito tênue, porque a psiquiatria estuda tudo aquilo que é comum, que é normal, e em alguma pessoa fica exagerado, que leva a um sofrimento, a um prejuízo na vida do indivíduo. Então, a gente pode falar isso de depressão, de ansiedade, e dos transtornos, por exemplo, de imagem corporal.
O transtorno desmórfico corporal, ele, muito mais do que a questão da autoestima, ou seja, o cuidado que você tem que ter com você, para você tentar melhorar aspectos que podem ser melhorados, tentar parecer mais belo do ponto de vista estético, etc., ele leva a um sofrimento exagerado numa característica que, para as outras pessoas, para quem está olhando, ou seja, para quem vê externamente, não vê aquele defeito que a pessoa considera como um grande defeito na vida dos outros. Ou seja, existe um incômodo muito grande com a autopercepção da imagem corporal, que não corresponde a um dado objetivo do que as pessoas, de fato, estão vendo. Então, a gente fala muito isso, onde ficou muito famoso, por exemplo, na anorexia nervosa, que depois a gente pode entrar nela, que aquela pessoa, muitas vezes, está magra, desnutrida, com IMC muito baixo, aquele índice de massa corporal muito baixo, para desespero dos familiares todos, e a pessoa está se vendo gorda, ou seja, ela olha lá, tem gordura aqui, tem gordura ali, tem aqui, e ninguém consegue ver isso.
Ou seja, existe uma desvinculação entre o que é objetivo, o que é real, o que eu estou vendo, e como a pessoa se vê no espelho. E aí a gente vai entrar nesse caso. Às vezes, são pequenos detalhes estéticos que, para qualquer pessoa, no caso dessa moça, uma moça muito bonita, que você olha, você não vê imperfeição nenhuma, mas, por uma busca de um padrão estético que, muitas vezes, é dela, nem é dos outros, ela acaba se submetendo a procedimentos que podem ser ou não desnecessários.
Então, existe um sofrimento com uma imagem da própria pessoa perante ela, ou seja, uma desvinculação do que ela vê no espelho, e do que, de fato, ela está sentindo, que leva a um sofrimento. E aí, a gente vai se estender aqui. Tem que existir um sofrimento, uma procura por tratamentos necessários, um pensamento repetitivo sobre o tema.
Eu tenho certeza que o Fernando, aqui, como cirurgião plástico, várias vezes vai pegar pacientes que ele vai falar o seguinte, olha, você não precisa dessa cirurgia, eu não estou vendo isso que você está me falando, e vai lidar. Por quê? Porque é um colega que eu conheço desde a minha formação, bem formado, que sabe, e a gente tem que ter um cuidado de estar sempre formando os bons profissionais. Por quê? Porque a gente está diante de um transtorno psiquiátrico, um transtorno psicológico, que o tratamento não é cirurgia, pode ter duas coisas.
E o que a gente vê é muito as duas coisas. E esse é o pior paciente, o paciente que você precisa identificar essa demanda que ela tem por um tratamento que vai solucionar algo que a gente não consegue solucionar, mas a gente tem uma cirurgia para proporcionar para ela. E o resultado que a gente entrega não atinge a necessidade dela.
Então, por isso que eu sempre acho importante trabalhar um alinhamento do que a paciente quer, o que ela espera de resultado, para ver se o que eu estou propondo de tratamento atinge aquele resultado, se a gente consegue atingir aquilo. E muitas vezes a paciente tem a indicação cirúrgica, mas a gente não identifica antes essa demanda e não encaminha para um profissional, a gente vai causar um problema muito maior, porque ela vai ficar numa busca incansável de tratamentos e cirurgias e nunca vai atingir, só vai ganhar cicatrizes. E muitas vezes é uma paciente que, em inúmeras cirurgias, pode ter uma complicação e cada vez mais irreversível.
Eu acredito que isso, inclusive, deve ser bem difícil, né, alinhado aí a cirurgia plástica com a psiquiatria, porque se chega um paciente que já veio de um outro médico, um outro especialista, que agora está, às vezes, aquele outro especialista falou, olha, não vou mais fazer nenhum procedimento, chega para você, é difícil você conseguir analisar até que ponto aquilo realmente é algo que a pessoa sempre quis fazer, é um procedimento que realmente é válido para aquela pessoa e até que ponto aquilo já está entrando nessa questão psiquiátrica, de um desmorfismo corporal? Então, o que eu acho importante, eu acho que ninguém conhece uma paciente em uma consulta. Então, tem muitos médicos que vêm o paciente, já indicam a cirurgia e não vê mais o paciente. Então, eu acho que o paciente tem que vir mais vezes, até mesmo para você entender o ambiente familiar.
Então, eu converso, sempre peço para ter um acompanhante, eu acho importante ter mãe, tia, marido, esposa, quem for que conheça aquela pessoa para confirmar a indicação cirúrgica. Então, eu acho que isso é fundamental, a participação de um familiar numa consulta. Mas essas pacientes que procuram médicos, já é um alerta, porque ela já não tem uma boa confiança no médico ou talvez esteja procurando um médico que indique a cirurgia que ela quer fazer, indique o resultado que ela quer ter.
Muitas vezes não é nem a cirurgia, fale exatamente o resultado que ela queira ouvir. Então, muitas vezes eu não operar, não estou resolvendo o problema do paciente, eu simplesmente estou empurrando o problema para outro profissional, porque muitas vezes esse paciente vai encontrar alguém que faça a cirurgia. Então, na verdade, a gente tem que acolher o paciente, tem que explicar toda essa demanda, tem que encaminhar para o profissional e solicitar.
Muitas vezes, já acompanham com o psicólogo, já acompanham com o psiquiatra, então, solicitar que o profissional faça um relatório e esteja de acordo com o procedimento. Então, eu já fiz isso, tem pacientes que acompanham com o psiquiatra e falam assim, só pede para o psiquiatra, fale que você vai fazer o procedimento. Ele tem que saber, até faz parte do tratamento do profissional, do psiquiatra, ou mesmo que seja uma psicóloga que esteja já acompanhando, que saiba que ela está naquele momento e vai fazer, porque pode ser que seja o pior momento para ela fazer da parte psiquiátrica e, depois de uma cirurgia, tem um déficit emocional, a pessoa fica, às vezes, fica mais deprimida, ansiosa no pós-operatório.
Será que ela está preparada para encarar aquele momento? Então, é assim que eu vejo a abordagem de um paciente que eu não vou fazer o diagnóstico de transtorno de esmorfo corporal, eu encaminho para um profissional que faça isso e que faça o acompanhamento. Mas, quando eu tenho dúvida, eu tenho que abordar e tenho que investir nessa abordagem para encaminhar para o profissional correto. Mas você sabe, Letícia, o que o Fernando está falando é importantíssimo.
Então, assim, dentro da história médica, quando a gente vai fazer uma anamnese, tem a história objetiva e a subjetiva. Então, você me traz algo, do ponto de vista Letícia, subjetivo, a sua vida e o seu ponto de vista. Quando eu peço para um familiar vir na consulta, que conheça bem aquela pessoa, vai falar o seguinte, vai falar, não, mas a Letícia, na verdade, doutor, ela está cismada com esse negócio na orelha aqui, desde que ela é pequena, a vida dela gira em torno disso, e que a gente vê realmente que você solucionando aquele aspecto, ele não vai migrando de um lugar para o outro, que é uma coisa circunscrita àquele problema, que para você pode até não ser tão importante, mas que para a vida daquela menina, daquele menino, daquele ser humano, aquilo se tornou um papel importante.
Então, a cirurgia vai ser ótima, provavelmente vai resolver o problema daquela pessoa, porque ele não está indo para outras áreas da vida, porque o transtorno desmorfo corporal, ele vai migrando, você resolve um problema e você cria outro, aí ele vai no outro colega, que não ficou satisfeito, e aí vem uma outra coisa. A gente cita muito do Michael Jackson, a questão do que ele tinha, por exemplo, com o aspecto próprio nariz, foram sete intervenções, porque uma para resolver o problema, muitas vezes que a outra iria causando, e esteticamente nunca estava do agrado, tinha uma questão muito maior que presspassava, mas não era só o nariz, eram várias outras questões que uma história objetiva, um familiar vai falar, o quanto que a pessoa está sofrendo. Para você que está em casa, pense o seguinte, doenças psiquiátricas, elas não descem do céu e vêm aqui, elas são uma construção, e metade da população, em algum momento, vai ter alguma coisa.
Então, o que causa? A gente vai falar de traumas na infância, então não é só o abuso sexual que todo mundo pensa, é abuso psicológico, abuso psicológico, físico, negligência, abandono, depois traumas na vida futura, depois estresse crônico, genética, frustração, a gente olha pai, mãe, irmãos, avós, mudanças hormonais, alterações inflamatórias, então, às vezes, tem doenças inflamatórias que causam sintomas psiquiátricos, e num pós-operatório, você vai ter citocina inflamatória, você vai ter liberação, você tem um procedimento. Então, dependendo da fase daquele paciente, ele está com um transtorno do pânico, e ele quer também fazer a solução de um problema estético dele. Só que na hora que ele se vê num centro cirúrgico, muitas vezes com a dor, com a citocina inflamatória, ele pode ter uma piora do quadro do pânico dele.
Então, talvez aquele momento, enquanto o quadro não está controlado, não seja o melhor momento para o colega operar. Não quer dizer que ele não vai operar. Eu vou falar, Dr. Fernando, estamos em tratamento com o fulano da Silva, em uso disso, disso e disso, ele teve uma melhora parcial até o momento, estou fazendo o ajuste, e eu solicito o prorrogamento aí.
Vamos esperar mais um pouquinho, porque na hora que fizer a cirurgia de mama, vai colocar lá a cinta, vai deixar ali. E aí a pessoa já tem uma questão com uma sensação subjetiva de falta de ar. Imagina o trabalho que vai dar no pós-operatório para o Fernando.
Não, mas está tudo bem, isso aqui não faz nada, mas se tivesse tudo bem, você fala. Você falar simplesmente, não, mas por que você está triste? A pessoa está doente, ela não consegue deixar de sentir aquilo porque alguém de fora falou, pare de sentir. Então, é o cuidado, é o momento que vai ser feito.
E você conversando, fazendo isso em equipe, fica muito mais fácil. Até eu já pedi cirurgias para colegas falando o seguinte, mas não tem, não, mas isso aqui é uma característica que vai ajudar na questão da autoestima, na socialização, por mais que para os outros pareça uma coisa simples. Então, era exatamente essa a minha pergunta, porque a gente vê muito falar, por exemplo, a pessoa está passando por um tratamento de depressão, por exemplo, e na hora de fazer uma cirurgia plástica, vai ter um problema direto ali com a questão da anestesia, da anestesia geral, a pessoa não pode ter anestesia geral por conta de algum remédio que ela toma para a depressão, não seria ligado a exatamente o remédio, seria aquele momento que a pessoa está passando de situação.
Você sabe, Letícia, que as pessoas têm muita fantasia em relação a tal da anestesia geral, como é que é, mas assim, quando a gente conversa com os anestesistas, a mata que está todo dia em centro cirúrgico, isso é um mito que se cria. E, na verdade, é a mais segura é a anestesia geral. Exatamente isso.
E as nossas medicações psiquiátricas, elas não são um problema para a anestesia geral, ou seja, a gente conversa com o anestesista, fala as medicações que estão usando, no máximo que vai ter é um ajuste do que ele vai utilizar, ele vai trocar um por outro, porque às vezes tem uma medicação nossa, que a gente fala o seguinte, que é um inibidor enzimático, o que é isso? Que dá uma interaçãozinha de aumentar a dose de alguma outra farmácia. O anestesista vai lá, usa outro e tudo bem, não tem aquilo que essa pessoa não pode fazer por causa do tratamento psiquiátrico. É muito mais pelo pós-operatório da dor, como ela vai lidar com a ansiedade, como é que ela vai lidar com a falta de mobilidade por um tempo, às vezes a pessoa está tão viciada naquele negócio da academia e ela vai ter que dar uma pausa temporária, então assim, o colega vai preparar muito bem, às vezes ele não consegue fazer tudo isso num dia só, numa consulta só e aí é o que o Fernando falou, se você alinha a expectativa do que o paciente espera e do que o Fernando vai proporcionar de maneira realista, no pós-operatório imediato, daqui a um mês e daqui a seis meses, a pessoa não vai ter uma frustração, porque ele não prometeu algo que ele não vai poder entregar.
Este é o grande problema da maior parte das relações humanas, do engenheiro, do arquiteto, do advogado, do médico, você não alinha a expectativa. O que você espera? O Fernando me chamou pra fazer um podcast sobre esmorfia corporal, mas o que vocês esperam? Então vamos levar um psiquiatra pra falar sobre esse assunto, pra mostrar pros pacientes que nem tudo é cirurgia e que a gente consegue muitas vezes, quando eu falo, não vou operar, não é porque o Fernando está recusando uma cirurgia, mas é pelo bem do paciente e talvez postergar aquilo, porque ele podia só falar, não vou operar e acabou ali, mas não, ele vai fazer uma, duas consultas, vai conversar com o familiar, vai identificar, eventualmente vai encaminhar pra alguém, por quê? Porque se não ele falou, o que vai acontecer? Vai sair daqui da clínica mato e vai na clínica da esquina até achar alguém que fale assim, eu topo. Só que aí vai vir a frustração e aí você não ajudou esse paciente, na verdade você provavelmente causou um problema pra ele.
Só que foi empurrado com a barriga, né? Pra outra pessoa. Exatamente. Dr. Fernando, essa questão de outras celebridades, eu trouxe algumas aqui pra gente citar também, a Megan Fox disse recentemente que tem essa questão do desmorfismo corporal que foi diagnosticada, a Bruna Marquezine também falou que teve esse problema em relação a, por causa de cobranças excessivas, que ela disse que desenvolveu um transtorno de imagem, depressão, chegou a tomar laxante pra emagrecer durante períodos consecutivos, né? O ator canadense Shaw Mendes também, que não são casos tão conhecidos da Bruna Marquezine e do Shaw Mendes, mas que são celebridades que recentemente admitiram passar por esse tipo de situação e como a gente já citou também, Michael Jackson, que é um caso muito conhecido, André Surak, que nós citamos aqui em outro episódio também sobre essa questão, né, de procedimentos exagerados.
Você percebe que as pessoas procuram no consultório procedimentos específicos, comparando com resultados que celebridades tiveram? As redes sociais tiveram um papel muito importante nessa questão do aumento da procura? As redes sociais, na verdade, elas estão intensificando isso de uma forma geométrica, principalmente com esses filtros que tem. Então, a pessoa quer o resultado do filtro e... e ninguém... eu já conto pra vocês, ninguém posta uma foto ruim no Instagram. A pessoa tira 500 mil e ela vai escolher a melhor e, se bobear, coloca aí no Photoshop.
Então, e fica todo mundo querendo atingir aquele resultado que, muitas vezes, é um ângulo de imagem. Até tem uma foto que eu postei um dia da posição do meu rosto em relação à luz, mostrando eu com e sem indicação de uma blefiloplastia. Então, às vezes, a posição da luz, o posicionamento que você faz, muda tudo.
Então, tem muita gente enganando e sendo enganada com as mídias sociais. Então, existe uma demanda muito intensa da sociedade. Padrões de belezas, eles vão mudando muito intensificamente.
É muito rápido os padrões de beleza. E coisa que demorava séculos. Antigamente, se você fosse ver o século passado, a pessoa estava no sobrepeso, tinha uma... traduzia uma ideia de saúde.
Então, vocês veem quadros do século 18, século 19, ali, com pessoas acima do peso. E aquilo era o padrão de beleza. Então, o padrão de beleza, ele vai mudando de acordo com as novas demandas da sociedade.
Agora, com essa... A gente pega o celular aqui e já começa a ver coisa nova. Que procedimento fez? Eu quero fazer. E, muitas vezes, procuro procedimento porque a outra pessoa fez.
Tem que fazer o mesmo procedimento para ter o resultado dela. Mas que não vai funcionar para ela. Ela não tem nem indicação daquele procedimento e, aliás, talvez ela se prejudique.
Então, é muito intenso isso e muito perigoso. Então, o que eu posso recomendar é que procure um médico que fale a verdade para você, que jogue limpo, fale todas as opções de tratamento e, dentro daqueles... Todas aquelas opções de tratamento, quais resultados você pode esperar de cada um deles e se você teria algum benefício de algum deles. Então, tem gente que quer... Eu quero fazer essa cirurgia desse jeito.
Então, você aceita o resultado, então, assim e não dessa forma? Isso precisa estar claro para o paciente. Então, é isso que eu tento fazer no consultório com os meus pacientes. É um esforço.
Eu não consigo fazer 100% dos pacientes. Às vezes, a gente tem alguma desconexão do resultado, do que o resultado está ótimo e a pessoa, talvez, ela não esteja 100%. Muitas vezes, com cicatriz.
Não é a questão do tamanho da cicatriz. A cicatriz ficou mais larga, ficou mais vermelha. Então, às vezes, é a questão biológica mesmo, o resultado de acordo com cada um.
Eu falo, isso eu não consigo melhorar, porque depende de você. Mas, eu faço o meu esforço voltado para tentar esclarecer o melhor tratamento e tentar alinhar o resultado. Quando a gente de redes sociais, celebridades, a gente costuma relacionar casos que envolvem mulheres, que buscam essa questão de se comparar com outras.
Mas, também, doutor, desmorfismo corporal atinge mulheres e homens. Vale a gente destacar isso? Em absoluto. Então, assim, pessoal, existem padrões de belezas masculinos, padrões de belezas femininos.
Isso depende da época e depende da região que a gente está. Então, por exemplo, se a gente vê sul-coreano, muitas vezes lá foram as cirurgias de mudança de queixo, de mudança do padrão do olhar. Então, isso vira uma moda, um trend naquela região que você vê uma geração de 10 anos ali de diferença que faz muito aquele procedimento.
Nos homens, normalmente, qual é o padrão mais comum e aceito? Musculatura definida, pessoas hipertrofiadas. O que a gente está vendo? Uma explosão da tal, da medicina do esporte, da nutrologia, de outras áreas onde o uso de hormônios anabolizantes não é exceção, vira regra. E essas pessoas, elas passam a ser escravos de uma rotina e não é um, não são dois.
É uma combinação com testosterona totalmente suprafisiológica, com GH. A pessoa gasta milhares de reais por mês para manter um padrão que ele não vai conseguir depois manter sem aquele tratamento. Isso também é desmorfia corporal.
Você tem o que a gente chama de vigorexia, que apesar de não ser um diagnóstico formalizado pelo DSM, que é o norte-americano, nosso código, ou o CID, Classificação Internacional de Doenças, a gente vê isso no consultório, que é o padrão, ao contrário da anorexia, que a menina está muito magra e ela se vê acima do peso ou com defeitos, o homem está forte, está bonito, o Fernando aqui, uma pessoa que está bem com o corpo dele, só que ele chega falando o seguinte, olha, eu não consigo, eu me sinto muito mal, eu sou muito fraco, e aí ele vai lá e começa a fazer um tratamento, cresce 10 centímetros o braço, mas nunca está bom. Sempre tem alguém que está melhor, o corpo dele é pequeno, ou seja, é uma percepção ao contrário, ele se vê sempre menor do que é no espelho. E aí, em vez de ficar necessariamente num procedimento cirúrgico, ele não vai estar no cirurgião plástico, ele vai estar no médico indóquino, um indóquino que vai topar fazer coisa, sabendo que aquilo não é o saudável pra ele, não é o atleta de alto desempenho, não é o atleta que vive disso, e vai fazer coisas que não são saudáveis pra ele, porque se ele não fizer, vai pro outro que vai fazer.
E o pior ainda, o cara da academia, que nem formação tem, vai falar o seguinte, toma aqui esse anabolizante. É a mesma coisa que o Fernando vê, só que numa outra especialidade. E, na questão de hormônio, falou em indóquino, porque quando a gente fala de hormônio, vem a especialidade indóquino, e, aliás, foi um do último, penúltimo podcast, anti-penúltimo, na verdade, foi em relação a hormônios, a gente fez até um de submundo da endocrinologia, também um dos... Lá atrás, exatamente abordando essa parte dos usos de medicações, porque não é só, na verdade, o indóquino, quando encontra, é um caminho fácil, porque você consegue paciente, tem gente procurando.
A pessoa se enriquece, e ela não está nem aí, esse médico, profissional, não profissional, ele vai ganhar um dinheiro e ele não está nem aí com o que vai ser daqui 10 anos. Não está pensando no depois, as consequências. É que tem muito médico que está prescrevendo, faz um curso de final de semana de endocrinologia e se intitula endocrinologista.
Pior, né? Faz em questão de medicina do esporte, tem os neutrólogos, tem um monte de gente que nem tem residência e está prescrevendo, porque o médico tem esse poder. Se eu quiser prescrever o hormônio, eu posso, né? Então... Até eu. Então, exatamente.
Mas não é médico, né? Começou com a psiquiatria lá. Mas o que o Fernando fala é exatamente essa situação. Você tem pessoas que se intitulam algo que elas não são.
E aí eu vejo esse fenômeno acontecendo muito com a neutrologia, uma especialidade séria que começou com a questão da alimentação parenteral, como é que fazia cálculo, e ela foi indo para uma área praticamente de estética, hormônios de pessoas que não são bem formadas, que fazem sem pensar. Porque é o que eu falo. O hormônio, dependendo do que você usa, se você quiser viver dois anos, ótimo, você vai ter realmente o resultado estético que você quer.
Mas o que vai acontecer daqui a cinco? O que vai acontecer daqui a dez? A gente, eu e o Fernando, a gente conhece quantos caras que se formaram com a gente, que estavam, do ponto de vista estético, enormes, e hoje não tem nenhum padrão estético daquela época, que a gente conheceu nos tempos áureos. Ou seja, o problema é isso, né Letícia? A gente não vive um ano, dois anos depois daquilo. Ah, eu vou fazer uma lipohd.
Mas a pessoa está completamente acima do peso, ela precisa fazer uma dieta antes para ela conseguir vislumbrar alguma definição de musculatura ali. O Fernando não vai conseguir fazer um milagre, não vai mudar. Então, e isso a gente tem que ver como é que as pessoas vendem lipohd, é como lipohd, então é high definition, todo mundo, ou lade, né? Todo mundo vai ficar, não.
Não é um carrinho de compras, né? Eu quero essa cirurgia para aquele resultado, né? Cada um tem uma indicação de cirurgia. Eu falo muito que as pessoas, essa parte de mídia social, enganam exatamente nisso, porque tem muitas pessoas que se dizem profissionais, especialistas em um assunto, e elas são porque na bio delas permite ela escrever no que quiser, então eu chamo esses de transespecialistas, porque a pessoa se diz que é, e automaticamente ela é e já vende o produto e a cirurgia. E é muito perigoso isso, porque tem uma transformação, a pessoa precisa se preparar, precisa saber.
E quem é especialista em algum assunto, ele tem que saber falar não. Ele não vende o tratamento, aquele tratamento, aquele procedimento. Ele vende todo um atendimento, a indicação e vê qual que é a melhor conduta com cada paciente.
E todos os tratamentos eles precisam ser individualizados. Não é um protocolo, fez isso, aquilo, então tem que ser dessa forma. Precisa ter uma individualização.
Os médicos fazem faculdade, se preparam anos para poder conseguir individualizar um paciente. Se não, a gente já estaria trocado por uma inteligência artificial e isso vai demorar ainda um tempo por conta disso. Eu não sou cirurgião, eu sou psiquiatra e a gente acompanha a carreira dos colegas e eu vejo muito as notificações da sociedade brasileira de cirurgia plástica, o cuidado que tem que ter com essas pseudo-especialistas que acham que são procedimentos que qualquer um pode fazer, só que é uma formação, além dos seis anos que eles fazem de graduação junto com a gente, o psiquiatra vai lá e faz três anos de residência, o cirurgião faz a geral primeiro, depois vai pra sub de plástica, muitas vezes vai entrando num nicho ali, ou seja, a gente tá falando de 12 anos ou mais de formação pra ele estar indicando ou não indicando um procedimento.
Eu, como psiquiatra, se eu quiser operar, o automato fala, eu posso, eu posso abrir minha clínica e falar, eu opero você, eu não poderia me chamar de cirurgião plástica, mas eu posso operar, qual o problema? Eu vou ter que arcar com a consequência do erro, ou seja, qual era a minha perícia pra fazer... Psiquiatra cirúrgico, cirurgião de almas. Qual é a minha competência, Letícia, pra você operar e eu fiz em você, olha, eu fiz Botox, eu fiz ácido hialurônico e eu também sabia como é que fazia, fiz uma mastopexia lá pra subir os seios. Tá, tudo bem, se deu certo, legal, não vai dar, mas imagina que desse.
Agora, se não der, quem é a culpa? Minha culpa, porque eu fui, eu te enganei falando que eu faria alguma coisa que eu não estaria capaz de fazer e aí tive a responsabilidade, cadê a minha formação como cirurgião? Cadê a minha cirurgião geral, cirurgião plástica, especialista? Eu não tenho, ou seja, eu vou tomar um processo e eu vou ser condenado com toda a razão, porque eu estava em perigo. Agora, vamos imaginar, você foi num lugar, mas as coisas acontecem, tem 0,001% de chance, mas o cirurgião sempre explica. Ah, não tem risco nenhum.
Olha, toda cirurgia tem risco, o risco é controlado, é minúsculo, etc. Mas as coisas acontecem, você pode sair aqui e acontecer alguma coisa na rua aqui na frente da clínica. Então, a gente tem que lidar com a expectativa.
Então, o risco é mínimo e ele vai te preparar. Agora, você é uma paciente que tem um problema cardíaco importante, o anestésio falou o seguinte, o anestesista é o terror do cirurgião, porque às vezes fica falando, essa aqui não vou, essa aqui vou, essa aqui não vou, e aí você resolve operar uma pessoa que não tinha condição, ou por questão psiquiátrica, vamos falar o seguinte, cirurgia bariátrica. Se o cara vai fazer uma cirurgia bariátrica, ele tem um transtorno de compulsão alimentar não tratado pelo psiquiatra, não é para operar.
Ele vai tomar leite condensado como se fosse Coca-Cola. O leite condensado vai ser um outro problema, mas tem um problema anterior a esse, que é, ele vai fazer um episódio de compulsão alimentar no pó cirúrgico e estourar o ponto. E aí ele morre.
Por quê? Vai fazer sepsis, vai abrir, imagina, o risco é enorme. Por quê? Porque ele não foi avaliado psiquiaticamente antes, porque o colega não teve o cuidado, muitas vezes, de fazer todo o procedimento certinho, que está lá, está na diretriz. Acompanhamento psicoterápico, laudo do psiquiatra, ah, mas qualquer um faz, faz aí, dá um laudo aí para operar.
E aí o que vai acontecer? Vai sobrar para todo mundo. E o pior das vezes, vai sobrar para o paciente que era a vítima da história. Com certeza.
Eu até pesquisando sobre esse tema, eu vi que é mais onde acontece, principalmente na adolescência, que é desenvolvido aí o desmorfismo corporal e pode ser influenciado por fatores genéticos ou ambientais. Então essa questão da adolescência, tem algum motivo de justamente quando a pessoa já está se desenvolvendo ali, definindo quem ela vai ser de verdade, por isso que é desenvolvido principalmente na adolescência, ou tem algum outro motivo relacionado a sexo social? Ah, Letícia, pergunta ótima. A adolescência é um parque de diversões em termos de uma montanha russa de alterações corpóreas, cerebrais, hormonais, e principalmente, o que acontece na adolescência? É a avaliação por pares.
Então na adolescência, a gente deixa de ter muitas vezes os nossos pais, os super-heróis, as pessoas com quem a gente respeita, admira, entende, e a gente passa por uma fase, durante a adolescência, muitas vezes de negação daquele conselho da pessoa que está lá te orientando, etc., e você passa a querer ser parte de um grupo, parte do peer, que é avaliado por pares. Então tem a pressão da sociedade, tem a pressão dos colegas, com quem você anda, o que eles fizeram, como eles avaliam se a pessoa foi ou não vítima de bullying, que isso acaba com o cérebro de uma pessoa, isso tem mudanças hoje de estudos até, de mudanças morfológicas em algumas regiões do cérebro. Então, pensa tudo isso.
Uma menina que ela fez a menaca, a primeira menstruação, então ela começa mês a mês a ter oscilação de estrógeo e progesterona. Na TPM, meninas têm alterações, o estrógeo normalmente está baixando, então tem mais tristeza, mais ansiedade, mais isso, mais aquilo. Ela já tem uma tendência genética, muitas vezes, a um quadro de depressão.
Oscila, e aí ela está fora do padrão estético, e aí as amigas dela estão dentro daquele padrão estético, e aí os meninos, muitas vezes, começam a fazer bullying com ela. Ela tinha um antecedente genético, às vezes, de depressão, ela tem a oscilação hormonal, ela tem a avaliação dos pares, ela tem um trauma externo, que é o bullying, e aí ela vai ver, às vezes, num procedimento bizarro, que acabou de aparecer na internet XYZ, não recomendado por ninguém, a possibilidade de resolver, na cabeça dela, do mundo mágico, aquele problema, mas não é assim. Então, a dismorfia, sim, é um transtorno psiquiátrico que pode, normalmente é, acompanhado de comorbidades, são outras doenças que vêm junto, transtorno de ansiedade, transtorno de humor, transtornos depressivos, uso de substâncias.
Então, muitas vezes, álcool, outras drogas, e aí a gente tem que ver esse contexto todo para poder propor um tratamento, que pode ser, nos casos mais leves, só psicoterapia, nos quadros moderados, graves, psicoterapia, qualquer outro psiquiátrico, e, às vezes, a gente vai até indicar, em algumas situações, cirurgia, porque é alguma coisa pontual, dentro de uma realidade, que vai dar um salto de qualidade de vida para aquela pessoa. Mas isso tudo é combinado, é uma equipe junto com a família. Adolescente não escolhe nada sozinho.
Então, assim, ah, mas eu quero, eu quero. Não, espera aí, mas tem um responsável legal por você. Não é assim, eu quero.
Por quê? Porque o Fernando vai fazer uma cirurgia em uma menina de 12 anos, que vai ter uma série de mudanças corporais depois no seio. Bom, espera aí. Será que está na época certa? Será que é o procedimento? Entendeu? Então, este conjunto de fatores, Letícia, faz com que a adolescência, que é uma época que a gente começa a procurar, às vezes, par sexual, a gente começa a ter um interesse pelo sexo.
Então, assim, tudo isso, às vezes, é o primeiro contato maior com o corpo. Então, tudo isso pode ser uma fase deliciosa, muito legal, muito bacana, rica e cheia de experiência, mas pode virar um inferno na Terra. Então, é esse o cuidado que tem que ter.
Uma avaliação precisa e saber como é que funciona, também, na família. Por isso que é tão importante o pai. Às vezes, você vai conversar com o pai ou com a mãe, você vê que o problema está ali.
O que os pais, eu já peguei tanto isso, imagina, consultório de psiquiatra, o que os pais estão tentando impor para o filho, e aí o filho é o resultado daquela parentalidade ruim. E aí... O problema são os pais. Exatamente.
E aí, a conversa, o tratamento é com os pais. Vem cá, vamos lá, olha o que você está fazendo, mostra dados. Porque os pais erram muito.
A gente não tem manual, mas o pai que ama, quando você tem uma conversa franca e mostra os dados, ele vai querer mudar. Então, assim, normalmente, não é o pai que é malvado, mas ele está na cabeça dele. Está aprendendo dele.
Também é uma experiência... Como ele foi criado. Que é única. Muitas vezes a pessoa não teve uma referência boa.
Exatamente. E sofre. A gente que é pai, a gente sofre.
Tem coisas que a gente não consegue nem lidar. Exatamente. Eu tenho um filho pequeno, você está falando dos pais, mas eu vejo meu filho que tem seis anos, ele já sofre essa questão de grupo, de como está sendo avaliado.
Tem um monte dessas situações que você está falando de adolescente, você fala assim, mas meu filho já está passando por algumas dessas experiências ruins. E aí, de criança, tem um detalhe que eu acho muito importante. Para a cirurgia plástica, tem muitas crianças, muitos pais que procuram a otoplastia.
Acho que é o que mais procura para a criança. É da orelha. Eu já fiz em criança muito nova, com acho que um ano de idade.
Mas era uma questão que era assimétrico e ela ia fazer uma neurocirurgia, foi com meu irmão. Já aproveitou o tempo cirúrgico. Aproveitou o tempo cirúrgico e fez sentido para mim.
Agora, uma criança de cinco anos que vem, que os pais querem que a criança faça a cirurgia porque estão com medo que a criança sofra bullying, não faz sentido para mim. Por quê? Ou é muito evidente e aí a gente pode trabalhar, mas o ideal é que... Meu ponto de vista, eu quero a sua opinião. Eu quero que a criança queira fazer a cirurgia.
Tem que fazer sentido para a criança, porque quem vai ficar com ponto, quem vai mudar é a criança, não os pais. Então, para mim, a opinião dos pais vale muito, mas o que vai definir se faz ou não a cirurgia é a criança. E a criança muitas vezes com quatro, cinco anos não está nem aí.
Não está nem aí. Se não teve aquela interação do bullying... Eu falei, o exuberante acaba mesmo tendo o bullying e tudo e acho que dá até para conversar com a criança, mas eu entendo que uma criança que vai fazer uma cirurgia estética, e é estética, vai mudar na estética dela, ela tem que participar, porque senão você escolhe um outro momento de fazer. Talvez esperar até os sete anos, que ela tenha uma interação melhor, mas, graças a Deus, criança com três, quatro anos nunca apareceu para mim, mas é algo que eu tenho bem consolidado para mim.
Eu prefiro, às vezes, até esperar a criança ter uma opinião e conseguir conversar comigo, porque, às vezes, é o pai ou a mãe forçando uma mudança que não faz sentido para ela. Então, era essa minha dúvida de como que lida com essa questão de criança, adolescente, quando são os pais que estão... Então, mas, olha só, isso que o Fernando falou é perfeito, porque, do ponto de vista técnico, a criança vai ser submetida a algo que não traz ainda incômodo para ela, com o medo dos pais de que aquilo sim vai se tornar um objeto de referência de bullying, que não necessariamente é verdade, e, provavelmente, essa criança vai, em algum momento, escolher a cirurgia sim, por uma questão estética, porque é fácil, o pós-operatório não é complicado e o resultado estético é muito favorável e é previsível. Então, assim, diferente de outras coisas que, às vezes, você não consegue, você consegue visualizar a cirurgia.
Então, mas quando a criança escolhe, com 7, 8, 9, 10, 11 ou 12 anos de idade, ela está preparada psicologicamente para dar um salto e até para aproveitar a melhora daquele procedimento, porque, assim, ela vai ter... Eu tinha antes e agora eu estou depois, ou seja, é uma conquista estética também, para a criança, de um pulo de autoestima, ou seja, você vai partir daqui e vai pular para cá. Ou seja, ela vai participar dessa possibilidade de se sentir o mais bonito, coisa que ela não estava sentindo antes feio ou diferente, ela não tinha essa percepção porque ela era muito nova. Então, eu concordo plenamente, claro, é um caso, mas falando no geral... Porque o fato de se acontecer uma cicatrização ruim, alguma simetria, ela também tem que participar de ter tido um evento que operou, mudou e não teve sucesso.
Ela também tem que ter isso. É uma maturidade. Pode acontecer.
Eu vejo queloide, uma cicatrização ruim. Não é culpa do médico. É algo biológico.
É desprezogenético. Exatamente. Ambiental e tudo.
Então, também tem histórias de pessoas que tiveram chondrite, que é uma infecção da cartilagem. E isso, o impacto negativo para a vida inteira da pessoa. Então, por isso que imagine ela não ter tido a oportunidade de escolher e ficou com uma sequela de algo que ela nunca quis, entendeu? Eu acho que a participação dela vai amadurecer muito mais, seja o resultado positivo ou negativo.
Com certeza. Agora, em questão de dados, quando a pessoa já é diagnosticada com desmorfismo corporal, eu trouxe um aqui, que é nacional, que fala que essa doença afeta entre 1,7% e 2,9% da população, tanto de homem como de mulher. Mas que, como a gente já citou, muitas vezes pode passar despercebida, né? Então, eu queria a sua opinião, doutor, se realmente é algo, esse número deve estar muito abaixo do que realmente atinge a população, considerando todas as questões das redes sociais que a gente disse, ou é um número realmente aproximado? Então, todo número de estatística depende muito de como foi a metodologia, qual foi o questionário que utilizaram, quais as perguntas que fizeram, por isso que a gente vê, né? A ciência, ela depende muito, e a gente brinca que 90% da literatura é lixo.
O que eu quero dizer com isso? Depende muito como foi feito. Por isso que a gente sempre gosta de ir atrás de grandes periódicos, grandes jornais, que tenham cuidado, revisão por pares muito bem feita, pra separar o joio do trigo. Essa estatística está aparentemente correta, é o número que a gente trabalha na maioria das vezes, e se a gente for olhar pro consultório de um cirurgião plástico, a gente vai ver níveis que somam muito mais do que 10%, né? Ou seja, você mais do que triplica, quadruplica este número, porque você tem uma amostra viciada, é uma amostra de pessoas que estão procurando procedimentos que vão ser realizados.
E a mesma coisa em algumas outras especialidades. Então, se você for num odonto, normalmente você pode ver também queixas maiores por questões odontológicas. Quantas pessoas não estão procurando placa, a lente de contato pra colocar no dente? Tem uma dentição linda, perfeita.
Ah, mas não é aquele branco colgate. Mas quem diz que o branco colgate nem é estético? As pessoas não têm essa percepção. Mas por quê? A pessoa não parou de fumar, a pessoa não parou de tomar café pra burro, não parou de tomar coca-cola.
Mas aí entra aquele outro problema, daquela busca, mas não quer fazer o caminho correto. Então, acho que isso é o que mais me incomoda no consultório, que as pessoas procuram um caminho mais rápido. Mudar o estilo de vida, que é difícil.
Muito, pra todo mundo. E é barato. Melhorar o estilo de vida, você economiza com drogas, comida, iFood, bebida, cigarro, começa a economizar, gasta menos remédio.
Não, não pode ser esse caminho. Tem que ser aquele que paga de imediato, aquele imediatismo do resultado, e que talvez daquela, da Luana Andrade, talvez o caminho mais fácil pra ela era mudanças no estilo de vida. Às vezes mudar, se ela está incomodada com uma pequena gordura, talvez faltava isso, mas talvez devesse estar usando, estou só supondo, pudesse estar usando hormônio, usando o chip da beleza, aquela cobrança muito intensa, aquela busca incansável por um resultado, e aí tem uma fatalidade.
E agora só um detalhe aqui que o Fernando falou. Primeiro, o chip da beleza não tem nada de chip de beleza, tá, pessoal? O chip da beleza, normalmente a gente tá falando de gestrinona nos casos mais comuns, que acaba tendo um efeito parecido com a da testosterona na mulher também, mas várias vezes nesses tais chips, né, a gente vê absurdos. Eu já peguei cada coisa no meu consultório, né, uma coleção de hormônios diferentes e o pior, médicos, se é que eu posso chamar disso, colegas sem nenhuma formação, totalmente despreparados, colocando medicações que não tem nenhum estudo de indicação de ser injetado no corpo da pessoa, por exemplo, propiona, naltrexona, topiramato, são medicações que não são injetáveis, ficam nesse tal de chip e aí eu vi pessoas cobrando, Fernando, ontem mesmo um colega mostrou 15 mil reais pra colocar esse tal de chip no lugar que a pessoa indica que faz essas barbaridades, ou seja, porque existe uma necessidade e é o que a gente brinca, né, todo dia tem uma pessoa ingênua saindo de casa e um malandro, né, e aí quando eles se encontram dá negócio.
Então, a pessoa normalmente que vende essas coisas, essas picaretagens, são pessoas que falam bem, bem articuladas, né, normalmente consulta as caras, né, eles usam referência de alguém que falou tal coisa que normalmente é o picaretamor, né, que tá lá acima, que fica fazendo o curso de formação de picareta juniors e aí eles vão mostrar, mas eu falo, é verdade, porque se você parar pra buscar resultados, o efeito placebo, que é o efeito psicológico, ele é muito bom, o efeito placebo ele dura em média 90 dias, então o maior inimigo da indústria farmacêutica hoje na psiquiatria é o efeito placebo, porque quando eu vou testar uma medicação nova, ela tem que ser melhor do que o efeito psicológico, que às vezes é 40, 50%. Então o cara vai no picaretamor, que fala bonito, que cobra caro, tem um consultório lindo, né, que pede mil e um exames sem nem ter visto a pessoa antes, manda fazendo um laboratório XYZ, que é o de confiança dela, depois são farmácias manipulações com fórmulas enormes que você nem pedir o orçamento e já te manda saindo da consulta, que já é até LGPD, Lei Geral de Proteção de Dados, e aí você faz, você toma um negócio, X, melhora, indica para todo mundo, vai um monte de gente no carro, daqui a três meses você está ruim, mas você já não associa que é ele, parou de fazer efeito, e assim você vai perpetuando. Não faz efeito porque é tão complexo o tratamento que às vezes a pessoa não consegue fazer 100%.
E aí fala, foi isso. Foi isso. Foi isso.
Você tomou às 9 horas da manhã? Não, tomei às 10. Ah, mas eu escrevi 9 horas. Mas é isso, entendeu? Então, nisso, as pessoas vão sendo enganadas por falsas cirurgiões, falsos especialistas, falsos psiquiatras, e isso é deletério demais, porque você está atrasando, às vezes, um tratamento correto, sério, que poderia ter sido resolutivo.
Então, este é o cuidado que a gente tem que ter. Quando a gente fala, por exemplo, transtornos, aqui a gente está falando de desmorfia. Normalmente ele vem muito junto com o transtorno alimentar.
Então, acho que é importante a gente dividir aqui, por exemplo, o que é anorexia nervosa, o que é bulimia nervosa e o que é transtorno de compulsão alimentar e todos eles podem vir com desmorfia corporal. O mais comum, que a gente vai ver, e talvez tenham mães e pais desesperados, com filhos com isso, é a anorexia nervosa, que a pessoa vai deixando de comer cada vez mais, fazendo cada vez ingestas de calorias menores, perdendo peso, até chegar num ponto, muitas vezes, um IMC, um índice de massa corpórea muito baixo, que a menina, às vezes, para de menstruar, começa a cair cabelo, perde o brilho de pele, ressecamento, intestino muda, porque aquela menina está comendo, às vezes, menos de 500 calorias no dia. E aí, isso tudo é um risco clínico muito grande e ela, emagrecida, se acha ai, eu estou gorda, ai, olha isso, ai, eu estou aquilo.
Ou seja, você tem anorexia nervosa com uma desmorfia corporal muito importante. Só que essa, qualquer um percebe. Qualquer um que olha, não precisa ser psiquiatra para ter alguma coisa errada com essa pessoa.
Mas, às vezes, ela não tem anorexia, ela pode ter bulimia nervosa. O que é a bulimia? Você tem o episódio de purgação posterior à comida. Então, você come, normalmente, você faz um episódio de binge, que é um comer exagerado.
Você come mais coisa do que outras pessoas comeriam em um intervalo de tempo curtinho, com uma sensação de perda de controle, de culpa posterior, remorso e, normalmente, às vezes, você pode até fazer escondido. Então, vamos imaginar, a gente sai para jantar em um restaurante japonês. Todo mundo tende a comer mais em um rodízio, por exemplo.
Mas, essa pessoa come muito a mais do que todo mundo comeria. Come mais rápido, depois come o doce, às vezes chega em casa, come a pizza escondido e come, come, come, perde o controle até o passar mal, etc. Isso é um episódio de compulsão alimentar.
E acabou aí. Se a pessoa vomitar depois, ou tomar laxante, ou tomar diurético, ou ir fazer três horas de academia logo posterior a isso, uma compensação, isso é um episódio bulímico. Ou seja, que a pessoa provocou algo para tentar compensar aquela compulsão.
Ela também pode ter desmorfia corporal, mesmo estando não estando magra. Ou seja, são esses três transtornos mais comuns alimentares. E aí, às vezes, você vê a pessoa muito magra, fala, essa eu vou levar para tratamento.
A outra não está magra. Por quê? Porque ela tem um episódio de comer e vomitar, já te aviso. Pessoal, é a pior solução que você pode arranjar para você.
Você tem risco, primeiro, você estraga os dentes, você tem risco de uma síndrome que se chama Malory Weiss, que estoura faz varizes no esôfago, estoura tudo, sangra, tem risco de morte. Isso não emagrece porque você tem a absorção calórica, ou seja, é a pior situação. Então, se você conhece alguém ou está passando por isso, procure ajuda da médica, porque é um problema sério para tratar.
A compulsão alimentar, ela tem tudo isso, mas não tem a purgação. Então, são essas pessoas que vão aparecer no consultório do Fernando. E o coitado Fernando lá, cirurgião, com a vida foi aprendendo a tentar.
Opa, esse aqui tem alguma coisa errada que eu vou ter que investigar a mais. E isso, como ele vai saber? Chamando a família. Entre tantas doenças que podem estar relacionadas que agora você citou, como que é feito, de fato, a confirmação do diagnóstico do desmorfismo corporal e como que é feito o tratamento? Perfeito.
O diagnóstico, ele é clínico. Então, o que quer dizer um diagnóstico clínico? Ele não tem exames laboratoriais, ele não tem exame de imagem, ele não tem pedidos adicionais, além de uma consulta bem feita. Ou seja, com um colega experiente.
Qualquer um pode dar o diagnóstico? Claro, se você estudar. Então, se eu preparar o Fernando para isso, como cirurgião, ele vai estar preparado para dar ou fazer um diagnóstico diferencial. Então, por que a gente fala psiquiatria? Porque normalmente é a especialidade que é treinada, né, para atender esse tipo de caso e falar.
Eu acho que, para eu identificar, eu tenho uma sensibilidade maior, mas não a especificidade. Ou seja, eu vou ver o paciente problema, mas eu não sei qual que é o problema. Então, talvez o problema seja outro.
Então, eu vou suspeitar quando o paciente tem, mas ele pode ter outras doenças, outros transtornos, muito mais importantes, que eu não vou conseguir nem tratar. Então, acho que é aí que está. O diagnóstico talvez até chegue para mim, mas eu não vou propor um tratamento e muito menos fazer uma psicoterapia.
Então, eu vou me limitar a um diagnóstico de algo que eu não vou tratar e que talvez tenha outros diagnósticos. Então, não faz sentido eu dar o diagnóstico para o paciente. Eu posso suspeitar e já dar o encaminhamento.
O alerta surge primeiro para você, que sabe ter esse contato mais próximo das questões téticas. O psiquiatra é o último da linha. Quando que você vai? Hoje ainda melhorou muito.
Ainda caro. Mas a gente não pega pacientes normalmente que veio no psiquiatra a primeira vez, a não ser que tenha um familiar que já trate, porque existe um instígamo muito grande e infelizmente ainda o psiquiatra é médico de louco, eu não tenho nada. Mas assim, ninguém disse que é louco.
Pelo contrário, quando a gente fala loucura mesmo, realmente o que as pessoas associam? Que são sintomas psicóticos, ouvir coisas que não estão, ver coisas que não estão, ter delírios. Isso é menos de um por cento. Então, a grande maioria são coisas do dia a dia que estão exageradas.
Eu entendo, ele vai me corrigir, mas provavelmente ele vai me concordar que o diagnóstico tem que ser feito, o melhor diagnóstico vai ser feito pelo psiquiatra e ele sim vai indicar se é algo que precisa ser tratado medicamentoso ou fazendo dando seguimento com um psicólogo. Mas o estigma de procurar um psiquiatra é muito grande e eu tenho dificuldade, porque eu encaminho, eu encaminho e teve pacientes que eu forcei, eu ligava, vai, não sei o que. E ficou ofendida.
Ficou ofendida. Principalmente eu tinha um caso que a mãe que estava em luto já um ano chorava por conta da mãe e tinha um pouquinho de desmorfismo. E eu falei assim, precisa de um psiquiatra exatamente para esse momento seu conseguir te conduzir e para você não precisar no futuro.
E aí você vê que a paciente não vai. Então, por mais que eu tente fazer isso, então muitas vezes a minha solução é, então vai fazer cirurgia agora. Mas o que é isso? Isso aqui é o certo da medicina.
É a humildade de falar o seguinte, o meu papel vai em saber que tem algo errado. É ótimo, é só isso que eu quero do cirurgião. É só isso que eu quero do colega clínico.
Tem alguma coisa errada, vamos investigar. O problema é você não ver que tem algo errado. Por isso que todo médico, independente da especialidade, ele tem que saber psiquiatria sim.
Não para saber o diagnóstico diferencial e nem para saber exatamente o que é aquilo, mas para saber o que é comum e o que não é. E a partir daqui, olha isso aqui, tem alguma coisa que precisa de uma avaliação especial. Porque é isso, o tratamento. Qual o problema? Se ele se propõe a tratar, ele não tem uma boa formação para isso, ele não treinou para isso, ele não tem os skills para isso.
Se ele quiser, ele vai fazer uma migração de carreira e vai se especializar. Aliás, tudo bem, eu vou ter um colega psiquiatra, já tive colegas psiquiatra que antes eram cirurgiões. Porque é, estou mudando, porque é um perfil de conhecimento muito diferente, mas ele tem o que precisa.
Que é aquela coisinha do Homem-Aranha ali de tutu, tem perigo aqui, está tocando. O que é? Ah, não sei, mas eu sei que eu vou chamar lá o Luiz para pedir uma ajuda, porque isso pode ser o modificador. E aí vai o mais importante.
Olha aqui, um lente da verdade. Diagnóstico psiquiátrico, um diagnóstico de exclusão. O que quer dizer isso? A gente vai excluir todas as outras doenças clínicas possíveis para falar que, por exemplo, a pessoa tem depressão.
Ela pode vir para mim com um baita hipotiroidismo da endocrinologia, tiroides funcionando pouco. Ela está triste, está deprimida, está chorosa, está largada da cama, está cansada, está inchada, mas aquilo não é uma depressão primária, ou seja, não é um problema psiquiátrico. Ela tem um sintoma secundário hipotiroidismo.
Vou encaminhar para a Lorena. Vou encaminhar para uma endocrinologista fazer o cuidado e acompanhamento daquele paciente. Aí ele foi procurar o psiquiatra, porque está triste, vou procurar o psiquiatra, só que aí não sou eu que vou tratar, eu vou identificar, vou pedir os exames iniciais.
Então exames gerais, TSH, T4 livre, vai vir mega alterado e eu vou pedir ajuda. Pode ser um problema neurológico, pode ser um problema de anemia. Então tem muitas especialidades, podem cursar com doenças e a manifestação ser psicológica.
Aí vai da minha humildade, da classe do psiquiatra, de falar o seguinte, olha, eu não trato isso aqui, isso aqui é do colega endocrinologista, mas se eu não suspeitar, se eu já chegar com tratamento antidepressivo, que eu estou fazendo mal com o paciente. Tem que pedir exames, né? Tem que pedir exames, o psiquiatra é médico. Assim como o psiquiatra precisa entender de condições clínicas, né? Exatamente para poder fazer uma pesquisa e encaminhar corretamente para o profissional mais adequado.
Perfeito, então, questão aí de remédio, caso seja confirmado desmorfismo corporal, costuma ser um tratamento medicamentoso. Sim, o tratamento medicamentoso, ele é muito interessante, ele vem mudando muito, a minha especialidade é psicofarmacologia, né? E a gente tem trabalhado muito em cima do conceito dos nomes das medicações. O que quer dizer isso? As pessoas falam antidepressivo, ansiolítico, antipsicótico, esses nomes são muito ruins.
Por quê? Antidepressivo, vamos falar do Estalopran, que 70% das prescrições de inibidor seletivo de recaptação de serotonina é o tal do Estalopran. Vou falar nome comercial para as pessoas em casa identificarem. Lexapro, Reconter, Êxodo, ESC, Espran, tem 40 marcas no mercado de Estalopran que todo mundo chama de antidepressivo.
Mas o Estalopran, que é um exemplo simples, ele funciona para tratar pânico, ele funciona para tratar TOC, ele funciona para tratar transtorno de estresse pós-traumático, fobia, transtorno depressivo maior, ou seja, transtorno de ansiedade generalizada. Ele não é um antidepressivo, ele funciona também como um antidepressivo para quem tem depressão, mas ele pode funcionar, por exemplo, no transtorno desmórfico corporal quando tem uma comorbidade com um sintoma ansioso ou um sintoma depressivo ou em, às vezes, doses altas, porque a desmorfia corporal é muito semelhante de certa forma com o TOC, que é o transtorno obsessivo compulsivo, que existe um pensamento recorrente na cabeça da pessoa, invade a cabeça dela sem ela querer, gera ansiedade, gera angústia, e aí ela leva a uma compulsão de fazer alguma coisa ou pensar alguma coisa. Isso, como é que trata o TOC medicamentosamente falando? Com medicações da família dos antidepressivos em doses mais altas do que o padrão.
Aí fala, mas doutor, eu não tenho depressão, doutor, eu não tenho ansiedade. E também tem medicações que são, tem uso de antidepressivos e trabalham dor. Dor, muito.
E eu vejo muito pacientes que você tenta indicar alguma medicação, ah, doutor, mas eu não tenho depressão, eu não estou bem. Então, às vezes, você está tentando introduzir um medicamento e a pessoa não quer, ah, por exemplo, na obesidade, por exemplo, o... Propionil naltrexona. Você vê que tem pacientes que não, topiramato também.
Tem muita gente que não toma, não tem aderência a tratamentos diversos por conta da palavra antidepressão. Fala assim, eu não tenho depressão. E isso a gente tem tentado mudar.
E aí fica a dica, NBN2, que é a nomenclatura atual, estamos no trabalho há 10 anos, o Colégio Europeu de Neuropsicofarmacologia, o Colégio Americano de Neuropsicofarmacologia, estamos já com a versão em português também, para tentar mudar o mundo da nomenclatura dos remédios que são nomes ruins. Então antidepressivo não é só antidepressivo, ansiolítico não é só para tratar a ansiedade. Então sim, o tratamento normalmente vai ser um inibidor seletivo ou um dual, que são os que tratam dor também.
Pode usar às vezes bênzio-azepínico na ansiedade maior, que são os calmantes. Então é um tratamento diverso. A gente tem mais de 40 opções diferentes de tratamentos medicamentosos, depende.
Mas sempre, sempre acompanhado de psicoterapia. Então a psicoterapia ela vai do quadro leve ao quadro mais grave. Nos quadros moderados, graves e muito graves, vai acompanhado normalmente da medicação.
Perfeito, muito esclarecedor. Já vou ter que encerrar por aqui, porque a nossa equipe já está sinalizando já faz um tempo. Muito obrigada pela sua participação, doutor Luiz Henrique Dickman, psiquiatra e doutor Fernando Amato, cirurgião plástico.
Foi muito esclarecedor de verdade, muito mais fácil de entender, né, quais as diferenças e como as podem já sinalizar, ficar um alerta aí, procurar o diagnóstico e também como que é feito o tratamento. Obrigada pela sua participação. Muito obrigado.
Muito obrigado, até mais. Até mais. Muito obrigada pela sua participação também aqui conosco e audiência no nosso Amatocast.
Se tiver algum tema de sugestão, pode mandar pra gente, comenta aí nos comentários e também conto com a sua participação nos nossos próximos episódios. Caso tenha perdido algum último que a gente citou e algum outro também da nossa playlist, a gente vai deixar aqui embaixo pra vocês. Muito obrigada, até a próxima.
Tchau!
Este conteúdo é informativo. Para diagnóstico e tratamento, consulte um médico especialista.